Com um comício no Teatro Argentino de La Plata, Cristina Fernández Kirchner teve lançada nesta quinta-feira sua candidatura à presidência da Argentina, para as eleições que se realizarão a 28 de outubro. O lançamento se dá em meio a uma sucessão de más notícias para o presidente Nestor Kirchner, que quer fazer da sua mulher a sua sucessora.
A semana começou com a renúncia da ministra da Economia, Felisa Miceli, que não suportou a pressão depois de ter sido encontrada, no seu banheiro particular, no Ministério da Economia, uma bolsa contendo 100 mil pesos e mais 32 mil dólares. O que, somado, dá algo em torno de 120 mil reais. Valor pequeno, se comparado ao um milhão e 900 mil das vacas de Renan Calheiros ou aos 2 milhões e 800 mil que teve de troco no negócio de Joaquim Roriz na compra de uma bezerra. Por lá, as questões de corrupção parecem ser tratadas com mais apuro. Miceli renunciou e já há um novo ministro da Economia.
Lá na Argentina, como aqui no Brasil, quase sempre que se fala em corrupção se fala em empreiteira. Pois, além do caso Miceli, a Justiça argentina investiga a empreiteira sueca Skanska pelo pagamento ao equivalente a 8 milhões de reais em propinas na construção de um gasoduto. Três funcionários ligados à pasta de Julio de Vido, o principal ministro de Kirchner, já caíram. Suspeitas de irregularidades também envolvem o secretário de Comércio Interior Guillermo Moreno e de Ambiente Romina Picollotti. Moreno está sendo acusado, inclusive, de ter manipulado os índices de inflação do Indec, que é o IBGE argentino. Oficialmente, a inflação acumulada de 2006 foi de 8%, mas analistas calculam que o índice deve ser o dobro.
O país vive também uma crise energética muito grande. Como o gás que produz e o que recebe da Bolívia tem sido insuficiente para atender a demanda, o país apelou ao Brasil, que tem mandada gás para amenizar a crise Argentina. Mesmo assim, Bariloche, por exemplo, que é a principal estação de turismo do país, chegou a ficar 12 horas seguidas sem luz e sem água quente.
Mas, para amenizar as agruras do casal Kirchner, a Honda anunciou esta semana que vai investir 100 milhões de dólares em uma nova fábrica para montar carros na Argentina. Já a General Motors anunciou investimentos de 500 milhões de dólares para a produção de uma nova linha de compactos, que serão desenvolvidos em São Caetano do Sul, em São Paulo, e em Rosário na Argentina. O investimento em território argentino será de 200 milhões de dólares.
Os anúncios, evidentemente, deram ânimo para a candidata, que era chamada de “Senadora rebelde”, se tornou “primeira cidadã”. Cristina, que está com 54 anos, começou sua carreira em 1989 na província de Santa Cruz, no extremo sul do país, de onde o casal Kirchner é procedente. Entre 1989 e 2003 construiu uma carreira como senadora mais destacada que a do marido. Mesmo sendo do mesmo partido do então presidente Carlos Menen, o Justicialista, sempre questionou as decisões do governante, o que lhe valeu o título de “senadora rebelde”. Deu um salto em 2005, quando deixou de candidatar-se ao senado por Santa Cruz, o que era eleição fácil, para disputar uma difícil indicação por Buenos Aires. Foi eleita com 46% dos votos. A atitude mudou mundo quando o marido chegou ao governo. Instalou seu escritório na própria Casa Rosada e seus críticos passaram a chamá-la de primeira dama. Foi então que ela se intitulou “primeira cidadã”.
Agora quer repetir Isabelita Perón, ou seja, ser mais uma mulher a presidir a Argentina.