(Artigo publicado no Correio do Povo de domingo, 30/05)
A Argentina festejou nesta terça-feira, 25 de maio, os 200 anos do início do movimento que levou à independência do país. Foi a revolta contra o vice-reinado do Rio da Prata, que culminaria com a conquista da independência a 9 de julho de 1916. Assim, estes dois primeiros dias da semana foram de feriados na Argentina, com a presidente Cristina Kirchner recebendo os presidentes da maior parte dos países da América do Sul e a população saíndo às ruas para as comemorações. Aqui em Porto Alegre também tivemos comemorações no consulado, tendo o cônsul Julio Olleta como cordial anfitrião.
É evidente que a data precisa ser comemorada. Porém, se formos analisar a situação de hoje da Argentina, não há muito o que festejar. Desde que o país aplicou o calote nos credores internacionais, os recursos de investidores estrangeiros minguaram. Assim como diminuiram as exportações de produtos da agropecuária, em função da taxação imposta pelo governo de Cristina. Aliás, não dá para entender o fato de ela ter comprado uma briga com o setor que promove a maior arrecadação do país. Briga esta que gerou a desavença da presidente com o seu vice, Julio Cobos, o qual, como presidente do Senado, deu o “voto de Minerva” contra o governo na questão de aumento de taxas sobre exportações. Aliás, em função dessa desavença, Cobos não foi convidado para as celebrações na Casa Rosada. Essas celebrações marcaram também a divisão interna vigorante hoje no país. A ponto da presidente Cristina Kirchner não participar dos festejos de reabertura do Teatro Colón, porque esta cerimônio foi liderada pelo prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri, que é seu adversário político. Esta disputa política se reflete no Congresso, onde governo e oposição promovem guerra declarada e não conseguem dialogar. Como consequência, ninguém consegue aprovar um projeto e quem sai prejudicada é a população. A oposição é unânime quanto ao combate ao casal Kirchner, porém, se esfacela quando busca formar uma liderança capaz de vir a se habilitar à sucessão presidencial.
No âmbito externo, o país vem num tênue porém crescente aumento nas tensões com a Inglaterra, em função das ilhas que os argentinos chamam Malvinas e que os britânicos conhecem por Falkland. Tensão que se intensificou quando a Inglaterra passou o explorar o petróleo que descobrira na região das ilhas. Por ocasião da recente cúpula UE-Mercosul, realizada em Madri, Cristina reclamou que a soberania sobre as ilhas deveria ser discutida no âmbito do Comitê de Descolonização da ONU. Pois o governo de David Cameron diz que o seu país, ao explorar o petróleo na região, está exercendo o seu direito de soberania sobre as ilhas. Com o que, se deduz, não se vislumbra perspectiva de a Argentina conquistar a soberania sobre as ditas ilhas.
Pelo menos no que toca ao relacionamento com o Brasil, os dois países vem experimentando nos últimos 20 anos o melhor período de suas histórias. Há desavenças, como a recente imposição de bloqueio à entrada de determinados produtos brasileiros, mas o intercâmbio vem num crescendo. Assim como a presença de empresas brasileiras na Argentina. Empresas e turistas brasileiros. Foi-se o tempo em que eles chegavam aqui e pediam: “dá-me dos”. Hoje a situação inverteu-se. Algo muito bom para se visitar Buenos Aires, que segue sendo uma cidade encantadora e de múltiplos atrativos. Com um pouco de nostalgia, evidentemente. Afinal, essa cidade há 100 anos já tinha o seu metrô. Seus prédios eram finamente construídos por arquitetos vindos da Europa e o país enriquecia com as exportações de trigo, lã e carne, fazendo com que o argentino tivesse uma renda per cápita superior a de espanhóis, italianos ou suiços. E dizer que hoje a sua moeda vale a metade de um real. Fatos que devem dar saudades aos argentinos do esplendor de 100 anos atrás.