Terminou de forma positiva para os réus, o caso das cinco enfermeiras búlgaras e do médico palestino condenados à morte na Líbia, por supostamente terem contaminado centenas de crianças com o vírus da Aids. A pena deles já havia sido comutada para prisão perpétua, mas, esta semana, depois de longas negociações que envolveram o novo presidente francês Nicolas Sarkosy e o presidente da Comissão Européia José Manuel Durão Barroso, os seis condenados chegaram ilesos à Bulgária.
Este episódio tem algumas conotações marcantes. Em primeiro lugar, ele marca com ponto positivo a estréia no cenário internacional do presidente francês Nicolas Sarkosy. Ele já havia deixado claro que um de seus objetivos era buscar uma maior aproximação com a África. Essa aproximação tem fins específicos. O principal deles é a tomada de medidas para acabar com a migração de africanos e árabes para a França, em particular, e para a Europa de um modo geral. Migrantes estes que vão aumentar os contingentes de desempregados e miseráveis.
A solução que Sarkosy vislumbrou é o fomento de empregos para os africanos em seus próprios países. Daí então, estar tratando não só de um aumento no fornecimento de ajuda humanitária, mas, principalmente, do incentivo a empresas européias para se estabelecerem na África. Ali, ganhariam não só áreas territoriais e isenção de impostos, como também encontrariam mão-de-obra barata.
A Líbia trata-se de um parceiro especial e que já vem sendo cortejado pelos EUA. A Líbia conquistou a independência em 1951, mas a fisionomia e a história do país começaram a mudar em 1959 com a descoberta do petróleo. Em 1969, um golpe militar, liderado pelo coronel Muhamar Kadafy, depõe a monarquia, nacionaliza as empresas estrangeiras e instala uma ditadura no país. Uma singular mistura de elementos isolados da tradição islâmica, nacionalismo extremado e personalismo de Kadafy torna-se a ideologia dominante. Em nome da causa palestina, o governo líbio patrocina várias ações terroristas no Oriente Médio e na Europa.
Durante a década de 80 as relações líbio-americanas estiveram extremamente tensas. Os EUA romperam relações diplomáticas, impuseram sanções econômicas e congelaram os capitais da Líbia em território americano. Além disto, promoveram demonstrações de força em águas territoriais líbias e, em 1986, bombardearam as cidades de Trípoli e Bengazi. Quando ocorreu inclusive a morte da uma filha de Kadafy.
Ciente de suas limitações e pressionado pelas sanções econômicas da ONU, Kadafy moderou suas ações a partir de 1992. Iniciou uma distensão com o Ocidente e, ao mesmo tempo, começou um programa de privatizações da economia e abertura aos investimentos estrangeiros. Chegou até ao ponto de reagir ao crescimento do fundamentalismo islâmico, rompendo relações com o Irã.
Ora, criou-se um quadro altamente favorável ao EUA. Hoje a Líbia está recheada de petrodólares, está investindo maciçamente no seu desenvolvimento, o que envolve a implantação de novas empresas, impulso na área de serviços e um boom na área da construção civil. Ou seja, isto representa tudo aquilo que Bush havia prometido aos seus apoiadores para ser feito com a reconstrução do Iraque e que não está sendo possível. Tudo isto vislumbra-se agora na Líbia. Por isto que, na concepção americana, Kadafy deixou de ser terrorista.
E se o país apresenta toda essa perspectiva para os EUA, porque a França não se aproveitar também? É o que Sarkosy está tentando realizar, aproveitando-se do episódio das enfermeiras. Mas, a propósito? E esta questão de condenação por terem contaminado centenas de crianças com o vírus da Aids? Pois isto não ficou esclarecido. O episódio parece terrível, mas simplesmente reflete algo que, já se sabe, é uma realidade na África. Ou seja, os grandes laboratórios farmacêuticos internacionais mandarem profissionais para aquele pobre continente, para injetarem vírus em cobaias e depois ministrar-lhes remédios que estão sendo testados sobre aquela determinada doença. Isto, inclusive, já foi até tema de filme.
Pois, será que essas cinco enfermeiras e esse médico palestino não estavam fazendo esse tipo de serviço? Será que, de repente, não houve uma ação dos laboratórios, comprando a liberdade dessas pessoas?
No atual contexto, tudo é possível.