Quem como eu, trabalhando com o noticiário internacional, acompanhou a história da China desde os anos 60, sofre um impacto ao percorrer as ruas de Xangai. Simplesmente, porque não se vê mais aquela população de fisionomia triste, desdentada, vestindo todo o mundo o mesmo modelo de roupa de brim, cinza ou azul escuro, e deslocando-se pela sujas ruas da cidade quase que exclusivamente de bicicleta. Xangai é o retrato da transformação da China. Gente alegre, trajes coloridos. Prédios imensos, de arquitetura exuberante, tomam conta da cidade, concentrando-se nas duas margens do rio Huangpu. Prédios que, ao cair da noite, se vestem de iluminação colorida, cada um com efeito mais especial, dando um toque especial à cidade. Mas o toque mais especial, já disse isto, mas é preciso repetir, é dado pelas flores. Nunca vi uma cidade tão florida. Por onde quer que se ande – e a cidade é imensa, são 19 milhões de habitantes – se vê flores. Nos muros, nos postes de iluminação, no guard-rail das vias elevadas, nos canteiros que acompanham as calçadas de passeio e, evidentemente, nas praças. É algo que impressiona. Como impressiona também o cuidado com a limpeza. Mesmo a população não jogando nada no chão, todas as noites as calçadas são limpas, amanhecendo impecáveis no dia seguinte. Assim, pisa no limpo quem caminha para tomar o moderno metrô, que através das suas 13 linhas atende diariamente 6 milhões de pessoas.
Pelas ruas e avenidas ainda circulam muitas bicicletas, agora já acompanhadas das motos de porte pequeno, tipo a velha lambreta. Circulando em meio aos mais modernos carros, produzidos por montadoras da Europa, do Japão, da Coréia e da própria China, cuja indústria automobilística está chegando ao Brasil e ao Uruguai. Esta mistura de veículos é algo que impressiona, porque há muita desordem no trânsito. Tudo funciona à semelhança com o que acontece na rótula da Nilo Peçanha, aí na nossa Porto Alegre: quem mete o nariz primeiro tem a preferência. O trânsito confuso é uma conseqüência evidente da chegada do carro. Uma chegada que é saudada pelos chineses, que dizem que isto demonstra que eles estão ficando mais ricos. O que é verdade, pois, para ter um carro é preciso pagar, além de IPVA, seguro e outras coisas como pagamos no Brasil, pagar também uma taxa que equivale a 10 mil reais. Aliás, que os chineses estão ficando muito mais ricos não há a menor dúvida. Além deste exemplo do carro, destaco o valor do aluguel de um pequeno apartamento de quarto e sala, no perímetro que vai do centro ao bairro de Pudong, que é onde está o centro financeiro. Não fica por menos do equivalente a 5 mil reais por mês.
Mas, em meio a toda esta riqueza, não há pobreza? Não se fala que a China tem 700 milhões na miséria? E tem, mas estes pobres não estão em Xangai. Não se pode esquecer que a China alia a liberdade do desenvolvimento capitalista com o rigor político do comunismo. Então, diferentemente do que houve aqui no Brasil, quando imensos contingentes marcharam para as grandes cidades quando a agricultura não deu mais subsistência, criando enormes bolsões de miséria, na China o governo controla a massa e não deixa migrar para as cidades. Por isto o caminho do aeroporto até a cidade é ladeado de prédios bem acabados, sem aquelas favelas corriqueiras que se vê no Brasil. Não fui para o campo, mas a informação que obtive é de que lá a miséria ainda é grande, embora o número tenha reduzido, pois já foi de um milhão de miseráveis. O crescimento anualizado de 10 a 11% está permitindo à China ir minimizando este problema, que não é fácil de resolver pelo elevado número populacional.
Voltando à rica cidade, não é sem razão que se espalham pelas avenidas grifes sofisticadas como Armani, Louis Vitton, Dior, etc. Algo que deve estar fazendo Mao se remexer dentro do túmulo.