(Artigo publicado no Correio do Povo de domingo, 25/07/10)
Hugo Chávez segue com o seu proselitismo. Depois de romper com a Colômbia colocou as tropas de prontidão e disse estar pronto para o combate. Como se a Colômbia fosse invadir a Venezuela! Mas é a estratégia de quem está acuado. A Colômbia apresentou nesta quinta-feira perante a OEA (Organização dos Estados Americanos) provas – fotos, vídeos e coordenadas – de que há 87 acampamentos das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e do Exército de Libertação Nacional (ELN) em cidades venezuelanas. A convicção colombiana é tanta, que pediu que audiência fosse pública e pediu a formação de uma comissão internacional para investigar o caso. Assim Chávez, ao invés de se propor a participar de tal comissão, prefere ficar fazendo bravatas, como se o povo venezuelano estivesse ameaçado. Tivesse Chávez a certeza de que não existem bases das Farc em território da Venezuela, não teria por que não participar da comissão proposta pela Colômbia.
Então, nesta quinta-feira, Chávez rompeu relações diplomáticas com a Colômbia. Pois na sexta-feira, o embaixador da Venezuela na OEA, Roy Chaderton, reconheceu que há guerrilheiros colombianos no país, mas negou apoio aos rebeldes e afirmou que as Forças Armadas venezuelanas não apenas combatem a guerrilha, como já entregaram membros capturados à Colômbia. Ou seja, Chávez foi desmentido por seu embaixador. Na realidade, não é novidade a presença de membros das Farc em território venezuelano. Em 2007, Iván Márquez, que é membro do secretariado (comando central) das Farc, foi recebido em Caracas pelo presidente Chávez, quando este, a pedido do colombiano Alvaro Uribe, mediava uma troca de reféns da guerrilha por rebeldes presos.
Em meio ao conflito, o assessor para Assuntos Internacionais do presidente Lula, Marco Aurélio Garcia, anuncia que o Brasil se propõe a agir como mediador. Esta, inegavelmente, é uma função que o Brasil deveria desempenhar, pelo que representa na região, em termos de grandeza territorial, econômica e representação política. Disse deveria, porque dificilmente irá executar. A diplomacia brasileira tem estado ausente das questões regionais. Está preocupada em resolver a questão nuclear do Irã e o conflito entre israelenses e palestinos. Não se preocupou com uma outra crise bem aqui pertinho, envolvendo dois membros do Mercosul, Argentina e Uruguai, na chamada “guerra das papeleiras”. O Brasil se omitiu, mesmo quando tinha a presidência do Mercosul e o caso teve que parar no Tribunal Internacional de Haia. Então, não é de se esperar muita coisa da diplomacia brasileira. Até porque esta sequer tem a confiança do presidente colombiano Álvaro Uribe, que a vê muito mais próxima de Hugo Chávez. O que não deixa de ser verdade.
O fato é que Chávez aproveita a crise para tentar a velha estratégia de unir a população em torno de uma causa nacional, para fazê-la esquecer que enfrenta, por exemplo, a maior inflação da América Latina, beirando os 30%; enfrenta uma profunda crise energética, que tem provocada apagões e racionamentos; e ainda enfrenta índices históricos mais elevados de desemprego e de insegurança. Solução para o conflito? Quem sabe a partir do dia 7 de agosto, quando assume o novo presidente da Colômbia, Juan Manoel Santos. Não se pode esquecer que ele foi ministro da Defesa de Uribe, mas pode querer seguir outro caminho, para mostrar que não está atrelado ao seu tutor.