(Artigo publicado no Correio do Povo de domingo, 29/08)
A secretária de Estado Hilary Clinton conseguiu o compromisso de arrastar para a mesa de negociações o primeiro-ministro de Israel Benyamin Netanyahu e o presidente da Autoridade Nacional Palestina Mahmoud Abbas. O encontro está previsto para os dias 1º e 2 de setembro em Washington e terá ainda como reforço as presenças do presidente do Egito Hosni Mubarack e do rei Abdullah, da Jordânia. E se tornou viável pelo fato ser programado sem pré-condições e também pelo aceno feito pelo chamado Quarteto para o Oriente Médio – EUA, UE, ONU e Rússia, de que dentro do prazo de um ano será estabelecido o Estado da Palestina. A reunião romperá 20 meses de estagnação no diálogo.
À primeira vista parece encaminhar-se uma solução para o conflito que se arrasta há 62 anos, só para citar o tempo que decorre desde a criação do Estado de Israel. No entanto, existem muitos entraves pela frente. A saber. O objetivo da ANP é ter um estado com as fronteiras de antes de 1967, conforme promessa do próprio Quarteto. A prática está mostrando que isto não se realiza. Israel tem uma política de assentamentos judaicos em áreas da Cisjordânia e não demonstra a mínima intenção de desocupá-los. Menor disposição ainda para entregar a parte oriental de Jerusalém, antiga e de predominância árabe, para ser a capital palestina. Basta ver os incidentes desta semana, quando moradores palestinos de Jerusalém Oriental jogaram pedras em policiais israelenses e em colonos judeus, além de incendiarem automóveis. Como pano de fundo estão decisões israelenses que vão desde o bloqueio aos palestinos de uma passagem em um bairro até a demolição das casas dos palestinos, conforme está previsto em um projeto da Prefeitura.
Israel tampouco aceitará, como quer a ANP, o retorno dos refugiados palestinos de 1948. E mais: Israel só admitirá um Estado Palestino sem armas, sem exército, sem controle do espaço aéreo e sem alianças com o Irã ou com o grupo libanês Hezbollah. E quer ainda, que a ANP desmantele o grupo radical Hamas.
Como se vê, são muitas as dificuldades. Mas, partindo do princípio de que os palestinos concordem com todas essas exigências para, enfim, terem o seu Estado, ainda assim ficaria um problema enorme, que é o Hamas. Esse grupo, que não aceita a existência de Israel, tem o controle da Faixa de Gaza e não acata a liderança de ANP. A não ser que Abbas aceite formar o Estado só no que ganhar da Cisjordânia, deixando o Hamas e a Faixa de Gaza numa espécie de limbo. O que parece pouco provável. Ou seja, são múltiplos os problemas para se acreditar no sucesso da reunião.
A propósito, o governo brasileiro, que se arvora negociador do Oriente Médio, aproveitou a convocação da reunião para manifestar a sua defesa da criação de um Estado palestino e o congelamento de construções em territórios ocupados por Israel. O anúncio foi feito em comunicado oficial divulgado pelo Itamaraty nesta quarta-feira. O texto defendeu o diálogo e o entendimento em busca de “uma solução justa e definitiva” para o conflito no Oriente Médio. Isto é o que a maioria quer. Chegar a este ponto é que é o problema devido às divergências relacionadas.