O presidente Donald Trump sentiu-se obrigado a fazer um grande recuo na guerra tarifária que estabeleceu contra o mundo. Resolveu ficar com um só oponente, a China, tendo aliviado a taxa para todos os demais. Este recuo não foi em atenção ao conselho de algum assessor melhor informado, mas, em consideração a um ente poderoso chamado mercado. Neste caso, mais especificamente à Bolsa de Valores de Nova York. A perda em dois dias de 11 trilhões de dólares por parte das empresas com ações na bolsa novaiorquina impactou. E foi seguida de fechamento em queda ao longo desta semana. Portanto, de mais perdas.
Por mais que Trump tenha ressaltado as diferenças de tarifas cobradas entre os EUA e seus parceiros comerciais – sempre em desvantagem para os norte-americanos – não houve como segurar sua decisão original. Até porque, na frente contra as medidas, se posicionaram aliados tradicionais dos Estados Unidos, como Japão, Coreia do Sul e União Europeia.
MUDANÇA
No que toca à China, ficou aquele jogo de, um aumenta aqui, o outro responde com outro aumento lá. Ou seja, inviabilizando qualquer avanço numa negociação. E, enquanto o presidente da China Xi Jinping ressaltava que “nesta guerra perdiam todos”, Trump dizia que o líder chinês é seu amigo e que estaria disposto a negociar.
Porém, diante de mais de uma semana de impacto negativo de sua decisão, Trump decidiu mudar o foco. Voltou-se para um dos polêmicos temas que havia levantado logo após assumir: o Canal do Panamá. Isto, depois de o vice-presidente J.D. Vance ter ido à Groenlândia – outra pretensão de Trump – e ter levado um fora dos ilhéus que se negaram a recebê-lo.
TOMADA
Vale lembrar que, logo após assumir, Trump anunciou que queria retomar o canal que fora construído pelos EUA de 1903 a 1914, mas que, mediante o acordo que fora assinado, passou para o controle do Panamá em 1999. Neste caso, mais uma vez a preocupação de Trump é a China. Com o seu programa Belt and Road Iniciative, também conhecido como a Nova Rota da Seda, a China está investindo maciçamente mundo afora, para ampliar seus negócios. São investimentos em portos, aeroportos, ferrovias, rodovias, etc. Financiam, constroem e depois vão administrar. Quanto ao canal panamenho, há informações de que as operações são controladas por duas empresas chinesas. E Trump entende que as empresas norte-americanas acabaram ficando à margem do processo, com os navios de bandeira USA tendo que pagar valores altos para transitar por aquela via. E mais, que as empresas chinesas lá estabelecidas fazem espionagem.
ENVIO
Assim é que, aproveitando para tentar mudar o foco do desagradável tema das taxas, Trump, anunciou nesta quinta-feira (10) o envio de tropas ao Panamá. “Deslocamos muitas tropas para o Panamá e ocupamos algumas áreas que costumávamos ter e não tínhamos mais. Mas agora, nós temos. E eu acho que está sob muito bom controle”, afirmou o republicano.
Antes disto, ele já havia enviado ao Panamá o secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, que teria assinado um memorando com o Ministério da Segurança panamenho, assegurando a presença no país de tropas americanas. Assim como teria conseguido que o governo panamenho rompesse os acordos feitos com os chineses no que toca à Nova Rota da Seda. “Eles querem a saída dos chineses comunistas. E com as nossas tropas, aliadas às forças deles, temos a chance de expulsá-los completamente”, anunciou o secretário.
AMEAÇA
Pelas palavras do secretário de Defesa estamos diante de uma ameaça de enfrentamento entre as duas grandes potências em solo panamenho. Afinal, ele está falando em expulsão dos chineses. Será que isto é verdade? E se for, irá acontecer sem maiores traumas? O certo é que a administração Trump está valorizando ao máximo possível este assunto Panamá, na tentativa de mudar o foco do noticiário internacional, que está concentrado no assunto das tarifas.
O detalhe é que o inimigo é o mesmo e, no caso das tarifas, estamos diante do que pode ser chamado de “guerra comercial”, porém, quando se trata de expulsão de empresas de um país por um terceiro, aumenta o perigo de escorregar para uma guerra convencional. O que seria desastroso. Mas, tudo é parte da estratégia de Trump para mudança de foco.