(Artigo publicado no Correio do Povo de domingo, 17/10/10)
O episódio dos 33 mineiros de Copiapó, no Chile, mostrou porque determinados programas de televisão alcançam tanto sucesso. Simplesmente, porque as pessoas adoram um espetáculo que envolva pessoas e emoção. Houve junto, é claro, um sentimento de solidariedade. Todos torcendo para que os mineiros se salvassem. Muito embora certas realidades acabem ofuscando outras. Assim, por exemplo, enquanto assistíamos ansiosos a operação de salvamento no deserto de Atacama, em Itaituba, a 1.385 km de Belém, no Pará, quatro mineiros morriam soterrados. E praticamente ninguém falou nisso, a não ser este jornal, que ressaltou o episódio em editorial.
O fato é que os mineiros chilenos se tornaram celebridades mundiais. E celebridades com a possibilidade de ganhar muito dinheiro. Afinal, editoras, jornais, emissoras de rádio e de TV do mundo todo estão tentando comprar entrevistas exclusivas ou os direitos para reproduzir alguma história. E até Hollywood já entrou na parada, visando levar para as telas a emocionante história dos mineiros. História que começará a ser dissecada a partir de agora, com um destaque especial para os 17 dias iniciais, depois do desabamento, em que eles permaneceram isolados do mundo, tendo vivido o pavor de ter que enfrentar a lenta morte por inanição. O operador de perfuratriz Dario Segóvia, resumindo um acordo entre os mineiros, disse que “o que ocorreu na mina, fica na mina”. Lógico que este será um tema a ser explorado. Naquele momento, certamente, é que devem ter se dado os maiores conflitos, assim como, também, a maior coesão. Esta, obtida a partir de lideranças como de Luis Urzúa Iribarren, que, como bom comandante, foi o último a sair na cápsula Fênix 2. Engenho que levou a tecnologia da Nasa para a mina. Aliás, toda a tecnologia empregada no resgate dos mineiros contrastou com o sistema empregado na mina, onde não se pensou sequer uma saída de emergência. Lógico, isto encarecia a produção. Daí a negligência da empresa exploradora da mina. A qual não está arrolada nos financiadores dos 22 milhões de dólares que custou a operação de resgate. Dois terços deste valor estão sendo pagos, como sempre, pelo Estado. Ou seja, pelo cidadão contribuinte. O outro terço é pago por empresas particulares, sendo que muitas delas, que forneceram equipamentos para o processo de salvamento, tiveram uma visibilidade mundial para os seus produtos.
Alheios às questões de custo de operação, os mineiros, cujo salário médio é de 800 dólares, estão mais preocupados agora é com a possibilidade de faturamento que se apresenta. A história dos 33 deve render muito dinheiro. Dentro dos princípios comunitários, eles resolveram criar um fundo comum, para onde deverá ir todo o dinheiro. Digo deverá, porque, seguramente, isto não irá funcionar. Haverá sempre aquele que vai se destacar mais, que será mais ativo, mais interessante para a mídia. E haverá aquele que é apagado, sem apelo. E isto com o tempo irá pesar no relacionamento. Sem contar a dificuldade que haverá para contabilizar a festa de Claudio Acuña, que pediu em casamento a mulher com quem vive há anos. Uma revista especializada em celebridades quer patrocinar a festa do casório. De forma que as desavenças em torno do faturamento é só uma questão de tempo.
Como não demorou também para se observar uma desavença entre o atual presidente, Sebastián Piñera, e a ex-presidente Michele Bachelet. Esta procurou creditar as falhas no sistema de segurança da mina à negligência do governo. Só que, ela foi a governante até o início deste ano e nada tinha feito neste sentido. Sua intenção, logicamente, foi tentar dar um troco a Piñera, que a acusara de negligente por ocasião do terremoto, que deixou mais de 400 mortos no Chile, em fevereiro último, quando ela ainda era governante. Mas isto faz parte do jogo político a que se está acostumado.
Resta é acompanhar o desenrolar desta história, que sacudiu tanto o mundo quanto o 11 de setembro de 2001. O mais concreto “reality show” que o mundo teve oportunidade de assistir neste final de década.