(Artigo publicado no Correio do Povo de domingo 31/10/10)
A pergunta que é mais feita nos últimos dias é sobre o futuro da Argentina depois da morte de Néstor Kirchner. Inquestionavelmente, o homem mais influente no país depois de Carlos Menem. Aliás, entre o governo de um e o governo de outro houve o período de quebra da Argentina. Menem ofereceu aos argentinos a ilusão de que a sua moeda valia o mesmo que o dólar americano. Sustentou este artificialismo durante uma década. Todos lembram do famoso “dá-me dos”, quando os “hermanos” por aqui chegavam. Ao tempo do presidente Carlos Menem e do ministro da Economia Domingo Cavallo, a Argentina era vista como a “menina dos olhos” dos FMI. O resultado todo o mundo sabe. A ilusória obra de engenharia econômica ruiu e o país literalmente quebrou. Veio o “corralito” e os argentinos que tinham seus depósitos bancários em dólares receberam uma desvalorizada moeda argentina.
Kirchner alçou sua caminhada nacional ao posicionar-se contra o terceiro mandato de Menem, de quem era um seguidor. Ao morrer Kirchner exercia os cargos de deputado federal pela província de Santa Cruz, presidente do Partido Justicialista e secretário-geral da Unasul, a União de Nações Sul Americanas. Mas ele já fora também governador por três mandatos da província de Santa Cruz, onde tinha o seu feudo eleitoral, e onde também, se dizia, fazia muitas negociatas. Seus críticos afirmam que sua gestão não foi diferente da maior parte dos governadores peronistas, e que seguiu as diretrizes políticas ditadas pelo então presidente Carlos Menem, baseando-se no personalismo e no autoritarismo, mantendo controle sobre a imprensa local e nomeando como juízes da Suprema Corte Provincial pessoas de sua confiança. O uso político do funcionalismo público e uma economia fortemente subsidiada teriam levado ao clientelismo político em Santa Cruz.
Ele assumiu o governo em março de 2003, sucedendo a Eduardo Duhalde, que conseguira tirar a Argentina do buraco, depois da quebradeira de 2001. Deu sequência à recuperação econômica do país, tendo no segundo ano de governo alcançado um crescimento do PIB da ordem de 7%. Algo positivo, é lógico, mas um crescimento que se dava sobre índices que haviam chegado a menos 11%. Aplicou um calote nos credores internacionais, que representou uma substancial redução nos investimentos externos na Argentina. Mas a recuperação econômica e da estabilidade política do país lhe permitiram eleger presidente sua mulher Cristina, a quem aspirava suceder. Tanto, que atuava como uma espécie de “eminência parda” do governo. E, pelo que tudo indica, era realmente quem mandava. Como disse o colunista Carlos Pagni, do jornal La Nación, “Cristina vinha exercendo a presidência, mas com a dependência de um chefe de gabinete”.
Com a morte de Kirchner, Cristina tem que partir para a linha de frente. E, seguramente, irá buscar a reeleição em outubro de 2011. Por enquanto, a oposição não tem um nome forte o suficiente para derrotá-la. Os nomes que mais despontam são o do ex-presidente Eduardo Duhalde, o do prefeito de Buenos Aires, Maurício Macri, e o do atual vice-presidente, Julio Cobos, que por sinal, derrotou Cristina no Senado na votação sobre as taxas aplicadas às exportações. Aliás, este é um dos aspectos que pesam contra a atual presidente. Ela bateu de frente com o setor do agro-negócio, principal fonte de arrecadação do país. Um dos reflexos é que o país perdeu em exportações. Vale lembrar que Duhalde e Cobos foram “recomendados” a não ir à Casa Rosada para o velório de Kirchner.
O governo de Cristina também sofreu algumas influências de Hugo Chávez. Uma delas, em forma de uma mala com 800 mil dólares, presa no aeroporto de Ezeiza, que chegara para impulsionar sua campanha eleitoral. Outra, na forma de combate à imprensa. Cristina comprou uma briga com os dois maiores jornais do país, Clarín e La Nación, dos quais tenta tirar o controle sobre a Papel Prensa, que é a empresa que produz o papel para a maior parte dos jornais do país. Aliás, o mercado financeiro refletiu esta disputa, pois, na quinta-feira, as ações dos dois grupos tiveram altas expressivas na Bolsa de Valores.
Enfim, Kirchner recebeu homenagens que lembram as prestadas a Perón ou a Evita, o que significa que ele irá deixar um vazio muito grande na fanatizada política argentina, embora uma boa parte da população o detestasse.