Há 80 anos, no dia 6 de agosto de 1945, é lançada a bomba atômica sobre Hiroshima, matando imediatamente 76 mil pessoas. Outras 70 mil viriam a morrer nos dias seguintes, em decorrência dos efeitos da radiação. Três dias depois, 9 de agosto, outra bomba, desta vez sobre Nagasaki, e mais 60 mil mortos de imediato, além outros 65 mil nos dias seguintes. Estima-se que cerca de 35% destas vítimas tenham sido crianças, com idades abaixo dos 12 anos.
Tragédia para o mundo não esquecer. E, embora tenham se passado 80 anos sem que outro artefato da natureza tenha sido lançado, é sempre importante lembrar a data e os malefícios causados, porque, desde que a Rússia atacou a Ucrânia, em 24 de fevereiro de 2022, tem-se ouvido falar em uso de arma nuclear.
MÃO MORTA
Nos últimos dias o tema ganhou força com os pronunciamentos do número 2 da Rússia, Dmitri Medvedev, e do presidente norte-americano Donald Trump. O primeiro, falando em “mão morta”, alusão ao período soviético. O sistema russo conhecido como Perimetr, apelidado no Ocidente de “Mão Morta” (Dead Hand), representa uma das expressões mais radicais da doutrina de dissuasão nuclear desenvolvida durante a Guerra Fria. Longe de ser apenas uma anedota de manuais militares ou um conceito distópico, o sistema Mão Morta materializa uma estratégia de sobrevivência automatizada para o Estado russo, diante de um cenário de colapso total provocado por um ataque nuclear.
A conclusão em Moscou foi inequívoca: seria possível que um ataque “decapitante” destruísse a cadeia de comando antes que qualquer contraofensiva fosse autorizada. O sistema Mão Morta surgiu como resposta a essa vulnerabilidade existencial. Ou seja, diante da falta das lideranças, qualquer um poderia acionar o sistema.
SUBMARINOS
Já o presidente Donald Trump retrucou a ameaça de Medvedev, dizendo ter posicionado dois submarinos nucleares em pontos estratégicos, sem dizer onde. E outro detalhe: submarino nuclear não quer dizer que carregue arma atômica. Tem o nome por ter propulsão a energia nuclear. Mas, pode ter armas convencionais como atômicas.
De qualquer maneira, Trump procurou dar uma resposta na mesma moeda. Porém, ambos deixando no ar a ameaça nuclear. Aliás, como tem feito o presidente russo Vladimir Putin desde que deflagrou a guerra contra a Ucrânia. Diante uma possível reação militar da Otan, tem deixado explicita a possibilidade do uso de arma atômica.
REMOTA
Sabe-se que estas manifestações estão mais para proselitismo do que para realidade. A possibilidade de uso é remota. No entanto, só a cogitação de uso já apavora. Especialmente, se observarmos as imagens do que aconteceu em Hiroshima e Nagasaki. E, hoje, o uso de armas nucleares seria muito mais letal, porque teria resposta, o que não aconteceu com o ataque ao Japão, quando este tipo de armamento foi usado pela primeira vez na história. O que se espera é que seja a primeira e única, pois hoje há a possibilidade do revive. Embora se saiba que isto represente mortes de ambos os lados e possibilidade de destruição total.
MENSAGEM
No ensejo da passagem dos 80 anos do lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima, o secretário geral da ONU, Antônio Guterres, chamou o mundo a uma reflexão. Em sua mensagem está dito: “Em um único instante, Hiroshima foi consumida pelas chamas. Dezenas de milhares de vidas foram perdidas. Uma cidade inteira foi reduzida a ruínas. E a humanidade cruzou um limite do qual não há retorno. Neste 80º aniversário, lembramos as pessoas que pereceram. Nos solidarizamos com as famílias que carregam essa memória. E honramos as corajosas hibakushas, as pessoas sobreviventes, cujas vozes se tornaram uma força moral pela paz. Embora seu número diminua a cada ano, seus testemunhos e sua eterna mensagem de paz jamais não nos abandonarão”.
AMEAÇA
Guterres lembrou que a ONU também completa 80 anos e que foi criada para prevenir guerras, defender a dignidade humana e garantir que tragédias do passado não se repitam. Sabe-se bem que esta garantia não existe. Até porque o mundo está cada vez mais convulsionado. E o próprio secretário da ONU admite: “hoje, o risco de conflito nuclear cresce. A confiança se deteriora. As divisões geopolíticas se aprofundam. E as mesmas armas que causaram tamanha devastação em Hiroshima e Nagasaki voltam a ser tratadas como instrumentos de coerção”.
Daí a importância de sempre manter viva a lembrança de Hiroshima e Nagasaki, para que acontecimento dessa natureza jamais se repita.