(Artigo publicado no Correio do povo de domingo, 14/11/10)
Os livros costumam mostrar ações que dirigentes não revelaram enquanto estiveram no poder. Isto tem ocorrido, especialmente, nos EUA. Assim já foi com Bill Clinton com o livro “As guerras secretas de Clinton”, de autoria do jornalista Richard Sale. Revela as guerras ocultas que travou nos Bálcãs, contra o ditador sérvio Slobodan Milosevic e no Oriente Médio, para conter os avanços de Saddam Hussein e da Al Qaeda. Pois agora é o ex-presidente George Bush que está tendo as suas ações reveladas. Foi lançado esta semana nos EUA o livro “Decisions Points”, que numa tradução livre é chamado de Momentos Decisivos. Pelas entrevistas que o ex-presidente concedeu esta semana, deu para perceber que se trata de uma autobiografia em que Bush revela que ordenou ao Pentágono que planejasse ataques à Síria e ao Irã. Que só não foram executados porque chegaram à conclusão de que iriam desestabilizar ainda mais a região, já afetada pelas guerras no Iraque e no Afeganistão. Vale lembrar que o ataque à Síria acabou sendo realizado por Israel, em 2007. País que não descarta o ataque ao Irã. Só que, para isto, precisa ter o completo apoio dos EUA, pois as conseqüências podem ser graves para os israelenses. Bush fala no livro sobre uma série de questões de seu governo, que não ficaram bem esclarecidas e diz que o pior momento que viveu foi em 2006, quando achou que iria perder a guerra no Iraque.
Bush diz no livro que autorizou o uso de métodos de afogamento, que são considerados tortura, para obter confissões de envolvidos nos atentados do 11 de setembro, o que, segundo ele, possibilitou o acesso a informações que evitaram outros atos terroristas. O que é bem provável. E disse que um dos momentos mais nojentos de sua presidência foi ter sido chamado de racista pelo músico Kanye West, por causa da demora no resgate das vítimas do furacão Katrina. Ora, ficou clara na ocasião a negligência do governo no atendimento às vítimas de New Orleans. Fato que deu margem a várias interpretações, que foram do racismo à incompetência.
O ex-presidente só não falou em seu livro que fez uma guerra contra o Iraque em nome de uma mentira, as tais armas de destruição em massa de Saddam Hussein, que nunca existiram. Aliás, foi o assunto que o irritou em uma entrevista para a NBC, quando foi questionado sobre o tema. Não se pode esquecer que esta guerra deixou mortos 200 mil iraquianos e 5 mil soldados americanos. Mas, havia que tirar do poder o tirano Saddam Hussein, alegam os defensores de Bush. Bem, para isto, ele poderia ter se espelhado em Bill Clinton, quando este quis se livrar do líder da Sérvia Slobodan Milosevic. Bastava ler o livro do ex-presidente republicano, onde diz: “A operação clandestina que derrubou Milosevic e o mandou para a prisão em Haia, é até hoje ensaiada na CIA como exemplo de eficácia de golpe relativamente pouco sangrento, que emprega tanto meios abertos quanto secretos” (página XV do Prefácio). Mas Bush, é sempre importante repetir, não queria apenas de livrar de Saddam. Queria fazer a ocupação do Iraque, para atender os interesses das empresas do petróleo, das armas e da construção, ou seja, aqueles que deram sustentação para sua campanha. “Espero que a história me julgue com sucesso”, diz Bush em seu livro. Mas não é isto o que tem transparecido de sua trajetória.
O Brasil e a ONU
Pois o Brasil acaba de ganhar um importante apoio para sua pretensão, defendida com ênfase pelo presidente Lula, de fazer parte do Conselho de Segurança da ONU como membro permanente. E este apoio parte da Grã-Bretanha, um dos cinco integrantes do organismo que tem o poder de veto. A manifestação foi feita pelo chanceler William Hague, em pronunciamento sobre América Latina, feito nesta terça-feira. Sucede ao pronunciamento do presidente americano Barack Obama, em favor do ingresso da Índia no Conselho de Segurança, organismo que é integrado, atualmente, por 15 membros, sendo dez rotativos e cinco permanentes, com poder de veto: EUA, Rússia, Grã-Bretanha, França e China. Ou seja, os vencedores da Segunda Guerra. Hoje se vive outra realidade mundial e Alemanha e Japão, os derrotados daquela ocasião, estão num outro contexto, sendo merecedores também de integrar o organismo. Assim como alguns países em desenvolvimento.
Mas os pronunciamentos de EUA e Reino Unido têm objetivos específicos. EUA defendem a Índia, como forma de se contrapor a outro gigante da Ásia, a China. A Grã-Bretanha defende o Brasil, como forma de se contrapor ao seu rival da América Latina, a Argentina. Ou seja, tudo é um jogo de interesse. Mas a grande indagação que cabe fazer é se estes novos membros, se forem aceitos, terão também o poder de veto, que hoje é exclusividade de cinco? Duvido.
A propósito, o Brasil e Lula passaram despercebidos no livro de Bush.