O esperado confronto verbal entre os presidentes Lula da Silva e Donald Trump, na sessão de abertura da Assembleia Geral da ONU, se deu de uma maneira inesperada. Com críticas nos discursos que haviam sido preparados, mas, com uma surpreendente e rápida conversa entre os dois líderes, ao se cruzarem no corredor de acesso ao plenário. O que se deu entre os discursos de um e de outro.
Ficou até a possibilidade de uma conversa direta entre ambos na próxima semana, acertada nos 20 segundos de papo. “Eu gosto dele e ele gosta de mim”, disse Trump a respeito de Lula. Falou que rolou até “uma química” entre os dois. Um aceno público de diálogo. E, quem sabe, uma revisão das tarifas impostas pelos EUA ao Brasil.
CRÍTICAS
Antes dessa manifestação de “afeto”, Trump justificou as tarifas aplicadas ao Brasil, que se deram em função do que considera violações de direitos humanos no país, numa relação aos julgamentos do ex-presidente Bolsonaro, seus parceiros de tentativa de golpe, como também os participantes das badernas de 8 de janeiro. Mas, logo acenou com uma mudança, ao dizer que o Brasil se dará bem se trabalhar com os Estados Unidos. Depois disto veio o afago e, implicitamente, a abertura das portas da Casa Branca para o diálogo.
O cinegrafista da ONU flagrou as reações no plenário de Lula, Janja, que estava a seu lado, do assessor Celso Amorim e do ministro da Justiça Lewandowsky. Isto porque o discurso de Trump estava indo para o final e parecia que não iria falar nada sobre o Brasil. De repente, depois de quase uma hora de pronunciamento, Trump falou sobre o Brasil. Primeiro com críticas, mas, logo em seguida, com caricias. Mudou completamente o que até ali se via como destaque. Como tal, uma surpreendente manchete para os jornais.
ANTES
Sem saber o que Trump iria falar, Lula fez muitas menções indiretas aos EUA. Disse que “o Brasil resistiu aos ataques à democracia e à interferência externa”. Usou expressões que tem aplicado ultimamente, como defesa da soberania e das instituições, numa relação às sanções aplicadas ao ministro Alexandre de Moraes, do STF. Criticou o isolacionismo e o individualismo e as violações das regras internacionais, também em crítica velada a Trump.
No que toca à guerra em Gaza, Lula foi contundente na sua crítica, o que significa bater com as posições de Trump e do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. Criticou o ataque do Hamas a Israel, mas enfatizou o que considerou genocídio que Israel pratica em Gaza. Acrescentou o “uso da fome como arma de guerra”.
ENGANAÇÃO
Tanto Lula quanto Trump usaram daquelas artimanhas de político no que toca ao uso de números, sem que as pessoas tenham oportunidade de comprovar a veracidade. Lula ufanou-se ao afirmar que em dois anos de governo reduziu pela metade o desmatamento da Amazônia.
Já Trump, em outro contexto, disse que se ele fosse presidente, a guerra na Ucrânia não teria começado. Ora, quando era candidato, afirmou que tão pronto assumisse a presidência terminaria com a guerra. Já fez até reunião com “pompas e circunstâncias” para Vladimir Putin e até agora não resolveu nada. A guerra segue matando e ele fala em acabar com ela mediante aplicação de pesadas sanções à Rússia. Ora, isto já vem sendo praticado há tempo e nada resolveu.
CRÍTICAS
Lula fez uma outra crítica a Trump no que toca a mobilização da frota americana que está acontecendo pelo Caribe e até a costa da Venezuela. Ação dita de combate ao narcotráfico que Lula considerou desproporcional. E criticou ainda o ataque a três botes na costa venezuelana, que resultou nas mortes dos ocupantes de todos eles. Lula criticou “a execução de pessoas sem julgamento.”
A disputa que se estabeleceu na sessão de abertura foi entre o secretário geral da ONU, o português Antônio Guterres, e o presidente Trump. Guterres criticou o isolacionismo, que está enfraquecendo os pilares da paz e do progresso. Assim como órgãos fundamentais como os setores das Nações Unidas para o comércio, OMC, e para a saúde, OMS.
Trump criticou a administração da ONU e ainda fez gozação com o não funcionamento de uma escalada rolante, assim como do tele prompt, o que aconteceu enquanto discursava. Mas, enfim, o fato é que a fala de Trump reservou uma grande surpresa, especialmente, para os brasileiros, revelando esta inesperada troca de afetos.