O pronunciamento de quinta-feira na ONU, por vídeo conferência, do presidente da Autoridade Palestina, Mahmmod Abbas, com uma única exceção, representa, no meu entendimento, o claro caminho para a paz no Oriente Médio e para a convivência harmônica entre israelenses e palestinos. A exceção que coloco e que pode ser passível de discussão, é a pretensão de ter Jerusalém Oriental como a capital do Estado Palestino. No mais, tudo é muito claro e fecha com o que tem sido manifestado por, até agora, mais de 150 países. E que também já fora estabelecido pela ONU ao final da Guerra dos Seis Dias, em 1967. Senão, vejamos.
HAMAS
É consenso internacional de que o Hamas é uma organização terrorista e tem que ser descartado de qualquer projeto futuro. Pois, Abbas disse que o Hamas não representa o povo palestino. Condenou os ataques do grupo, feitos a 7 de outubro de 2023. Condenou as mortes e os sequestros de pessoas. E destacou que o Hamas ficará fora de qualquer projeto futuro para a Palestina. Para isto a organização terá que entregar as armas. E, neste caso, será muito importante o papel do Catar e de outros países árabes, para ajudar a sufocar a organização.
E aí é sempre importante destacar a diferença entre o Hamas e o Fatah, que é partido que comanda a Autoridade Palestina, com ação na Cisjordânia, e que já declarou múltiplas vezes que aceita a existência de Israel e a solução dos dois estados, convivendo com fronteiras definidas e seguras. E para esta segurança invocou a participação dos países árabes, a maioria dos quais possui acordo de paz com Israel ou está por firmar.
TERRITÓRIO
O território que defende para o Estado é o mesmo que vem sendo apontado há longo tempo: a Faixa de Gaza e a Cisjordânia. Só que, é preciso que Israel saia de Gaza e pare com a instalação de colônias judaicas na Cisjordânia e que sepulte a ideia de alguns integrantes do governo de Netanyahu de separar aquela área em duas. Neste ponto o presidente Trump foi muito incisivo, dizendo que não deixará Israel anexar a Cisjordânia. Só que, isto tem que valer quanto à anexação de qualquer parte daquela região.
Outro aspecto muito importante que Abbas falou, atende ao que muita gente em Israel aceita, ou seja, um Estado Palestino desarmado. Abbas deixou claro isto. O máximo que terá é o que já existe hoje, um sistema policial para controlar as cidades. Nada de exército. Fazer com que o povo palestino deixe de se considerar cidadão de segunda classe.
HISTÓRIA
Não se pode esquecer que a existência de dois estados já foi objeto de acordo entre as duas partes, em 1993, com o Acordo de Oslo, mediado pelo então presidente americano Bill Clinton. O fato chegou a dar o Prêmio Nobel da Paz para os signatários: o primeiro ministro Yitzhak Rabin e o chanceler Shimon Peres por parte de Israel, e Yasser Arafat pela Autoridade Palestina. O que se viu na sequência foi o assassinato de Rabin por um judeu radical, com o consequente retrocesso no processo, especialmente, depois que Ariel Sharon assumiu o governo em Israel.
DESAFIO
Reconhecer o Estado, dar força para a Autoridade Palestina, ajudar na proteção de Israel, fazer investimentos para dar emprego e dignidade à população, são alguns dos aspectos considerados fundamentais. E reestabelecer algo que, antes do conflito vinha sendo praticado, ou seja, os palestinos poderem cruzar a fronteira para trabalhar em Israel. O que era uma convivência harmônica entre os dois povos. Enfim, estabelecer um processo que envolva os países da região e que Israel deixe de se sentir cercado de inimigos por todos os lados. Lembrando que muitos desses países já deixaram de ser inimigos, tendo firmado acordo de paz e outros estão por fazer o mesmo. Como coloca a Arábia Saudita, desde que, no contexto, seja contemplada a solução do problema palestino.
CAOS
Agora, a prevalecer as posições dos atuais dirigentes de Israel, o que teremos será a continuidade do conflito, com o consequente aumento do sofrimento do povo palestino, bem como com a também crescente insegurança para a população de Israel. Sim, porque o Hamas não terá sido eliminado. Seus atuais integrantes podem morrer em sua quase totalidade, mas, sempre restará algum para insuflar esses meninos que hoje estão em Gaza e que sobrevivem em meio às bombas e as mortes de seus parentes e amigos, a se tonarem os novos terroristas. Esta é a escolha para Netanyahu e seu parceiros.