Donald Trump, se percebe claramente, já largou a Ucrânia, deixando-a nas mãos de Vladimir Putin. A Europa, no entanto, segue mantendo o seu respaldo e, ainda nesta sexta-feira, 19, aprovou uma ajuda de 90 bilhões de euros para o governo de Volodimir Zelensky. Não alcança ainda os 136 bilhões de euros que Zelensky está precisando para fechar seu orçamento, mas, já um alívio.
O dinheiro virá de fundos europeus, tendo em vista que foram vencidos aqueles países que queriam utilizar, para tal, reservas da Rússia. O objetivo inicialmente era usar a metade dos 180 bilhões de euros que o Banco Central russo tem na agência belga de depósitos Euroclear. Embora houvesse defensores intransigentes dessa medida, decidiram por não provocar mais Vladimir Putin, que havia dito que a ideia era um roubo.
CREDIBILIDADE
Criada em 1968, a Euroclear é, ao lado da luxemburguesa Clearstream, a principal instituição de custódia de títulos do mundo, servindo como uma espécie de banco para os BCs. Hoje tem sob sua responsabilidade cerca de 43 trilhões de euros em ativos de 2.000 clientes. Assim, meter a mão no dinheiro da Rússia seria desacreditar a instituição.
O fundamental no presente momento foi alcançado, que é ajuda a Zelensky para se manter até o ano que vem. Isto, logicamente, a continuar o atual cenário de guerra, porque, a depender de Putin e de Trump, esta guerra termina agora com a rendição ucraniana.
PRONUNCIAMENTO
A propósito, Putin fez seu tradicional pronunciamento de final de ano, em que ao longo de mais de quatro horas responde a jornalistas e populares, tendo ressaltado que a paz na Ucrânia depende agora dos apoiadores de Kiev aceitarem seus termos, que incluem cessão territorial e neutralidade militar do vizinho. Putin quer, simplesmente, tomar conta de toda a região do Donbas, ou seja, a parte leste da Ucrânia, inclusive de áreas em que ainda não estabeleceu o controle militar.
E o detalhe é que o presidente Trump tem demonstrado concordar com essa pretensão. A ponto de Putin elogiar Trump, como de costume, dizendo que o americano está “fazendo um grande esforço” para achar uma saída para a guerra, e que relatou as exigências russas na cúpula entre os dois no Alasca, em agosto. E voltou a dizer que os líderes europeus da aliança militar, ou seja, da Otan, “estão se preparando para uma guerra, para a qual a Rússia não tem interesse em lutar”.
PREPARO
Que a Europa está se preparando para essa guerra é verdade. Isto já foi explicitado por vários dirigentes europeus, por não acreditarem que Putin vá parar com seus avanços sobre território alheio, mesmo recebendo as áreas que cobiça na Ucrânia. Essa crença é sustentada com base na História, sendo lembrado sempre o acordo Chamberlain-Hitler.
Uma referência ao fato ocorrido nos primórdios da Segunda Guerra Mundial, quando Hitler exigiu que, para não seguir avançando com suas tropas, queria que lhes dessem a região dos Sudetos, que envolvia áreas de língua alemã da Polônia e da antiga Tchecoslováquia. Na Conferência de Munique, em 30 de setembro de 1938, o Reino Unido, representado por seu então primeiro ministro Arthur Neville Chamberlain, aceitou a proposta do líder alemão, sob a promessa de cessar todas as hostilidades.
ROMPIMENTO
Em março de 1939, Hitler violou o acordo, invadindo o restante da Tchecoslováquia, demonstrando que suas ambições eram maiores. O episódio é visto como erro estratégico, que encorajou Hitler que, a seguir, em setembro de 1939, invadiu a Polônia, episódio que deu início à Segunda Guerra Mundial.
A União Europeia tem invocado esse episódio para não ceder a Putin. Mesmo assim, há a crença de que, em algum momento ao longo desta década, terão que guerrear com a Rússia. A Alemanha até já estabeleceu a data, conforme foi anunciado por seu Ministério da Defesa: o mais tardar até 2029. A França acredita que antes disto, tanto que já fez advertências aos seus setores hospitalares para se prepararem.
FUTURO
Diante disto fica a indagação: e os Estados Unidos? Vão ficar alheios aos acontecimentos? Afinal, o país é o líder e principal força da Otan, a aliança militar de defesa do Ocidente, cujo estatuto estabelece que se um de seus membros for atacado, todos os demais tem que sair em sua defesa. No atual contexto, sob Donald Trump, parece que não haverá mobilização americana se tal confronto acontecer.