DIÁRIO DA VENEZUELA
Cheguei a Caracas pelo Aeroporto de Macatia, situado à beira de montanhas, mas junto à costa do Caribe. Tem-se do alto uma paisagem bonita, mas que, ao se aproximar do ponto de descida vai mudando, porque as montanhas vão sendo ocupadas por precárias habitações, muito semelhantes às favelas do Rio de Janeiro. Fica a beleza do mar. A descida do avião, obviamente, não se dá através de um finger, como nos aeroportos mais modernos, mas através de um ônibus, que conduz os passageiros até o terminal. E ali é que se dá o maior impacto. Ao entrar no saguão nos deparamos com uma enorme foto de Hugo Chávez, acompanhado de crianças e com a inscrição “pátria pasión – vivir en socialismo”. Seguem-se enormes cartazes com fotos de crianças e com a apologia dos benefícios de viver no socialismo, como diminuição da mortalidade infantil, aumento da altura das crianças, adultos participando de programas de alfabetização, etc. Cruza-se aquela série de cartazes e logo vem o atendimento por funcionários do governo, de cara amarrada e de pouca conversa. Ou seja, parecia que eu estava chegando a Cuba.
E tal qual Cuba, deu para sentir de imediato a irrealidade da economia. Ao esperar pela mala junto à esteira, ou seja, na parte interna do aeroporto que é restrita a funcionários, já veio um deles fornecendo informações e, sutilmente, oferecendo câmbio. Cotação de sua oferta no paralelo: 7 bolívares por 1 dólar. Cotação oficial na casa de câmbio do aeroporto: 3,90 bolívares por 1 dólar e mais ainda uma taxa. Ou seja, como todo socialismo, o da Venezuela oferece uma economia irreal.
Logo que cheguei ao hotel liguei a TV para me inteirar das notícias. E o que vejo? O presidente Chávez denunciando um plano para matá-lo. Plano este que seria liderado pelo empresário Guillermo Zuloaga, dono da TV Globovisión. Disse Chávez que os opositores já tinham reunido 100 milhões de dólares para o pagamento da sua execução. Zuloaga, que está exilado nos EUA, disse o seguinte: “Presidente, eu não o quero morto. Pelo contrário, o quero com muita saúde, para que o senhor venha a responder ao povo venezuelano pelos estragos que o senhor fez neste país e pelo destino que teve esta enorme fortuna que o senhor arrecadou.”
Este foi o “clima” que senti ao chegar a Caracas.