DIÁRIO DA VENEZUELA
Na ida do aeroporto para o hotel em Caracas, trajeto que durou perto de uma hora, aproveitei para conversar com aquele que, em qualquer cidade, nos oferece informações privilegiadas: o taxista. Mas este que me conduzia se superou. Fez um relato pormenorizado da situação do país, mostrando duas coisas: um conhecimento profundo de todos os temas e uma revolta muito grande com Hugo Chávez, a quem chama por um palavrão. Tratei de indagar sobre sua formação, para ter tanto conhecimento. E aí veio uma das realidades do país. É um professor universitário de administração, mas que não consegue manter a família com o que recebe e precisa fazer o “bico” em um taxi de turismo. Por razões óbvias pediu que não revelasse seu nome.
O quadro que pintou é de um país dividido. De um lado estão os setores produtivos, empresários, trabalhadores dos mais diversos setores, ou seja, as classes alta e média, que estão perdendo aceleradamente o seu poder aquisitivo. O socialismo de Chávez está correndo com os investidores externos do país. A conseqüência é o fechamento de empresas e o aumento do desemprego. A propósito, a empresa líder do nosso Pólo Petroquímico, a Brasken, já fechou suas portas na Venezuela. De outro lado, nesta bipolaridade venezuelana, estão as camadas populares, alvo dos programas assistencialistas de Chávez. Estas camadas recebem assistência à saúde dada basicamente por médicos cubanos, recebem o equivalente ao bolsa família de Lula, e recebem também – e aí é que mora o perigo maior – fuzis Kalishnikov de fabricação russa. É o armamento das milícias populares. E isto, na visão desse professor universitário transformado em taxista, é o embrião de uma guerra civil, através da qual Chávez pretende perpetuar-se no poder.
A propósito, nesta terça-feira à noite Hugo Chávez proporcionou um espetáculo que busca fomentar uma questão externa para buscar o domínio interno. Ele presidiu no palácio de governo o que chamou de Ato em defesa da Pátria, da Soberania e contra o Imperialismo. Os estrategistas de Chávez foram buscar razão para o movimento na recente reunião de cúpula da Otan em Lisboa. Naquela ocasião, a aliança militar, formada por EUA, Canadá, países da Europa e mais Turquia, firmou um acordo de cooperação com a Rússia, para a instalação de sistemas de anti-mísseis na Europa. Sistema que é para se precaver de ataques terroristas, como da Al Qaeda, ou de algum país de regime radical como o Irã, ou ainda, em caso extremo, a China. Mas, o fato de o acordo estabelecer que a Aliança pode atacar em qualquer lugar quando se sentir ameaçada, foi visto por Chávez como “uma ameaça às nações bolivarianas”.
Como se observa, o conflito faz parte do jeito Chávez de administrar.