Até o momento em que escrevo esta coluna ainda não houve nenhum anuncio oficial, detalhando o acordo que foi alcançado entre o presidente Donald Trump e o secretário geral da Otan Mark Rutte, sobre a Groenlândia. O que ficou claro é que Trump não fará uso nem das sanções comerciais e nem das armas. Trump, em seu estilo falastrão, disse que alcançou o que queria sem gastar nenhum dólar.
Ora, o que se percebe é que ele alcançou aquilo que poderia ter obtido sem precisar fazer o espalhafato que fez. Ou seja, ganhou o direito de ampliar a base que os Estados Unidos possuem na ilha, mobilizar suas forças armadas pelo território e, o que talvez seja o principal, ganhou o direito de explorar os minérios da Groenlândia.
MOBILIZAÇÃO
Só que, para chegar a estas conquistas, que seriam obtidas com um simples diálogo, Trump acenou, não só com as sanções e mobilização militar, nas quais recuou, mas com a tomada da posse da ilha. O que, evidentemente, não aconteceu. Mas, chegou a provocar não só a revolta, mas, a mobilização militar de oito países europeus que enviaram tropas para proteger a ilha.
Trump criou o fantasma de uma guerra entre Europa e EUA. Ou seja, entre membros da Otan. Criou um desgaste totalmente desnecessário com parceiros tradicionais. Não se contesta os objetivos de Trump, que são em defesa dos interesses norte-americanos. E não poderia ser diferente. O que se contesta é a forma de agir.
CONSELHO
Em meio às negociações sobre a Groenlândia, Trump anunciou, nesta quinta-feira, 22, a criação do Conselho da Paz. Teoricamente, para reunir parceiros que estejam dispostos a colocar, cada um, um bilhão de dólares para a recuperação de Gaza. Desde logo, conseguiu algumas adesões importantes, como de Israel e de monarquias árabes, todos com poder econômico para bancar a proposição.
O projeto para Gaza, estabelecido a partir do acordo de cessar fogo com Israel, prevê o desarmamento do Hamas, a constituição de um governo formado técnicos palestinos, a retirada das forças de Israel, e o início da reconstrução do arrasado território. Estima-se que mais de 80% das edificações foram destruídas. Em meio a todas essas conversas, não falaram na questão que é crucial para que se estabeleça uma paz permanente na região: a constituição do Estado da Palestino. Enquanto não atacarem este ponto teremos apenas lenitivos.
AMPLIAÇÃO
Mas, Trump já se empolgou com a ideia do Conselho e quer ampliá-lo para a busca de solução de outros conflitos. Fato que ajudou a deixar céticos alguns países, onde se inclui o Brasil. O que se percebe é que Trump está pretendendo criar um organismo que substitua a ONU. É certo que a Organização das Nações Unidas tem sido muito inoperante nas questões mundiais. Porém, o organismo criado por Trump tem um objetivo específico, que vem perseguindo há muito tempo: ganhar o Prêmio Nobel da Paz. Aliás, o seu detrimento no prêmio recém concedido à venezuelana Maria Corina Machado foi motivo de crítica direta de Trump à Noruega, dizendo que, em função disto, “não tinha mais compromisso com a paz”.
DOUTRINA
O que Trump tem feito de mais importante para os EUA é restabelecer a Doutrina Monroe na região, porém, com uma roupagem muito clara. Tirar daqui as influências de China, Rússia e Irã. Este tema foi explicitado pela advogada e política colombiana Carolina Restrepo Cañavera, em artigo publicado em La Prensa Digital, de Buenos Aires. Isto explica o ataque feito na Venezuela para depor Nicolás Maduro.
As justificativas apontam para alguns fatos, segundo Restrepo. A China, por exemplo, garantiu o controle dos minerais estratégicos, essenciais para os sistemas de orientação, telecomunicações e armamentos. O Irã instalou bases ofensivas de drones, capazes de atingir a Florida a partir do Caribe. A Rússia implantou sistemas de guerra eletrônica, radares, treinamento de inteligência e escudos antiaéreos. Durante anos, Cuba forneceu seus soldados para essa arquitetura de guerra, montada a menos de 2.000 km do Comando Sul.
Assim, na visão americana, se um país adversário controla os minerais, outro produz os mísseis, outro fornece a inteligência e outro controla a cadeia de comando, a ameaça já existe, mesmo antes do primeiro projétil disparado. Daí então a ação na Venezuela. Feita com uma estratégia bem diferente da política do estardalhaço adotada na Groenlândia.