DIÁRIO DA VENEZUELA
Esta uma semana que passei na Venezuela foi pródiga em acontecimentos. Tivemos, antecipando a chegada, manifestantes parando o metrô de Caracas, sendo presos e sendo libertados por decisão da Justiça – algo difícil no atual contexto – que não viu delito no ato. Tivemos o presidente Hugo Chávez se declarando ameaçado de morte e, logo em seguida, declarando guerra ao “império ianque”. Ao mesmo tempo, tenho da Câmara de Comércio Venezuela-EUA a informação de que 46 empresas americanas foram expropriadas pelo governo de Hugo Chávez. Destas, apenas cinco conseguiram indenização. Mas tiveram que fazer o processo através de tribunal internacional. As outras ainda estão a ver navios.
Por estes fatos introdutórios dá para se fazer a análise do que ocorre no país. O protesto no metrô foi porque ele tem parado com freqüência. E a paralisação se dá por falta de energia elétrica, que é um problema que afeta toda a Venezuela, que se arrasta por mais de dois anos e que não vislumbra solução. O país depende de uma única hidrelétrica, de Guri, que está sucateada, porque não houve reposição de peças, tanto na parte de geração quanto na de distribuição. Assim, foi estabelecido um cronograma de racionamento para as cidades, que afeta, logicamente, as residências, os escritórios, as lojas e, principalmente, as indústrias. O que se constitui em mais um fator para os empresários estarem fechando as portas de suas empresas e se mudando para outros países. Ou reforçando os negócios que têm em outros países. A Brasken é um exemplo. Isto, sem contar as ações desapropriatórias de Chávez, que coloca outros tantos a correr. O sociólogo e professor da Universidade Central da Venezuela, Thomaz Paez, me informa que de 1999 para cá houve uma diminuição de 40% das indústrias na Venezuela. Resultado: menor número de empresas, maior número de desempregados. Maior número de desempregados, maiores índices de violência. Não foi sem razão que, quando no avião que me conduzia a Caracas, recebi a advertência do contabilista venezuelano Eduardo Rodriguez para ter muito cuidado ao circular pelas ruas de Caracas. Eu disse a ele que estava acostumado com o Brasil. Ao que me respondeu que presta serviços para sua empresa na Venezuela e no Brasil. Que conhece bem as duas realidades, mas que na Venezuela a situação está muito pior, porque, enquanto no Brasil está havendo a ascensão da classe baixa e da classe média, na Venezuela a classe média está sendo sufocada. E a classe baixa que não tem ajuda do governo não tem onde trabalhar. Então, a violência, o assalto e roubo vão num crescendo. Estudo realizado pelo escritório da Fundação Konrad Adenauer indicam que de cada 10 venezuelanos, seis estão na informalidade ou no desemprego.
Abafar esta realidade é o objetivo de Chávez. Por isto acena com a ameaça externa. Com o seu assassinato em cooperação com os EUA, com a invasão dos EUA e até com a paranóica e megalomaníaca pretensão de que um dos resultados da cúpula da Otan, no fim de semana passado em Lisboa, foi traçar estratégia para atacar a Venezuela e “as nações irmãs bolivarianas”. Aliás, pobre Bolívar, o que o nome dele está sendo usado constantemente para justificar babaquices. É algo monumental. Chávez fala como se estivesse vivendo 100 anos atrás. O sistema que defende já sucumbiu mundo afora. Só se mantém nas ditaduras monárquicas da Coréia do Norte e de Cuba.
A propósito, a Venezuela não é ainda uma ditadura, mas, se Chávez não for contido, se encaminha para tal. Boa culpa disto se deve aos políticos tradicionais do país. Foi por perderem a credibilidade que surgiu Chávez. E na eleição de 2005 cometeram o erro histórico de boicotar o pleito, com o que Chávez elegeu dois terços do Congresso e introduziu as modificações que sufocaram o Legislativo e o Judiciário, deixando todo o poder com o Executivo. Hoje, a Venezuela tem o governo de um homem só, que dita o que quer. E que chega a violar a constituição quanto estabelece que a Venezuela é um país socialista, o que não está contemplado na Carta Magna. Mas não é contestado por ninguém porque o Judiciário é submisso.
Reverter esta situação nas eleições presidenciais de 2012 é o grande desafio que se apresenta para a oposição, que vem avançando. Conseguiu unir-se na MUD, Mesa da Unidade Democrática. Conseguiu vencer as eleições para quatro das cinco prefeituras que compõem o município de Caracas, inclusive no mais pobre deles que é Sucre. Conseguiu fazer mais votos, no geral, nas recentes eleições legislativas, embora tenha feito menos deputados, justamente, pelas artimanhas eleitorais elaboradas por Chávez. Mas, enfim, a oposição vai avançando e Chávez vai recuando e apelando para as ameaças externas. Estas, sabe-se, estão muito mais para a fantasia. Já mais para a realidade é outra ameaça que pode advir com Chávez, devido ao armamento que está fazendo das milícias populares.