O presidente francês Emmanuel Macron fez um pronunciamento incisivo, dizendo que o seu homólogo americano Donald Trump quer dividir a Europa. Ressaltou que o continente deve esperar novas agressões do americano e que a questão da Groenlândia não acabou. Curiosamente, no mesmo momento em que Macron fazia este alerta, Trump voltava a colocar lenha na fogueira de disputa com outro aliado importante, o Canadá.
A propósito do Canadá a posição atual de Trump chega a ser ridícula, depois de ter sido desrespeitosa, quando ele propôs anexar o Canadá e transformá-lo no 51º estado americano.
PONTE
A bronca infundada agora é em torno de uma ponte, que ele quer proibir a inauguração. E não é uma pontezinha qualquer. Ela liga os dois países através de Detroit, no estado de Michigan, e Windsor, em Ontário. Ou seja, dois importantes estados de cada país. Vem substituir a ponte Ambassador, uma das passagens de fronteira das mais movimentadas, por onde passam diariamente bens comerciais da ordem de 300 milhões de dólares.
Ao referir-se ao assunto, Trump deu mais uma de suas desastradas declarações: “Não permitirei que esta ponte seja inaugurada até que os EUA sejam totalmente compensados por tudo que lhes demos e também até que o Canadá trate os Estados Unidos com justiça e o respeito que merecemos”. Respeito que Trump não tem tido com o Canadá, ao tentar anexá-lo e impor sanções econômicas. E quanto à ponte, ela foi toda financiada pelo Canadá e será de propriedade conjunta dos governos de Ontário e Michigan. Então, que compensação ele quer?
EUROPA
Quanto à fala de Macron, ela se deu através de uma entrevista de mais de duas horas ao britânico Financial Times e ao francês Le Monde, em antecipação a uma cúpula de líderes da UE prevista para a hoje. Sutilmente, Macron pediu que os europeus se unam e reforcem sua competitividade no mercado global não só contra a dominante China, mas também ante os antigos aliados do pós-guerra. Não é preciso ser especialista para saber que “os antigos aliados do pós guerra” são os Estados Unidos da América de Donald Trump.
O atual presidente americano está rompendo uma aliança histórica, o que muda o quadro geopolítico global. E quando Macron fala que Trump está agindo para desmembrar a Europa, ele está se referindo ao fato de o americano estar entregando a Ucrânia para Vladimir Putin e, com isto, dando oportunidade para que o russo vá adiante em suas ambições expansionistas. Não se pode esquecer que o sonho de Putin é restaurar o bloco da antiga União Soviética sob o comando de Moscou.
FORÇA
Não é sem razão que a Polônia, que já esteve sob o domínio de Moscou e que faz fronteira com a Ucrânia, está tratando de se armar o mais possível, tendo destinado 5% de seu PIB para a defesa. O secretário geral da Otan, Mark Rutte, lidera a aliança militar com o foco principal em aumentar investimentos na defesa e manter a unidade dos países membros.
Os europeus sabem que a Otan sem os EUA perde a maior parte de seu potencial. Mas, sabem também que, diante das posições de Trump, precisam tratar de se reforçar. Em especial pelo fato absurdo de os europeus terem que se defrontar militarmente com os EUA se Trump levar adiante sua intenção de tomar posse da Groenlândia.
DEFESA
Aliás, outro dos maiores absurdos cometidos pelo dirigente americano. Ora, os Estados Unidos já possuem uma base militar na ilha que pertence à Dinamarca e bastava uma conversa com os dirigentes locais, argumentando a necessidade de ampliação do setor de defesa na ilha, que não haveria nenhuma restrição. Porém, Trump, com suja arrogância, veio com a ridícula ameaça de tomar posse de um território que não é seu, mas de aliados. Embora sabendo que não possuem força suficiente para enfrentar o poderio bélico americano, oito países europeus mandaram soldados para a Groenlândia com a missão de ter que enfrentar o maior parceiro da Otan.
Pelo menos por enquanto, Trump parece ter deixado de lado a questão da tomada da Groenlândia pela força, tendo acenado com uma negociação, que é o que deveria ter feito desde o início. Mas, voltando a Macron, ele teme uma outra confrontação com os EUA, na questão da regulação digital, prevendo mais tarifas de importação caso a Europa coloque em efeito uma nova legislação sobre o tema. E destacou que, não bastasse o “tsuname chinês”, a Europa ainda tem que enfrentar os arroubos de Trump. Ou seja, Europa e Canadá, os principais parceiros dos EUA na Otan, são atacados pelo país que lidera a organização que criaram para se defender da Rússia.