Desde que Javier Milei tomou posse em dezembro de 2023, a Argentina tem vivido um período de reformas econômicas profundas, com impacto direto no mercado de trabalho, na inflação, na pobreza e nas tensões sociais. Seu governo liberal-ultraconservador implementou um conjunto de medidas de austeridade e desregulamentação que geraram tanto apoios quanto severas críticas.
A principal marca das reformas de Milei tem sido o “corte com motosserra” no setor público e na economia estatal. O governo promoveu demissões significativas de funcionários públicos: mais de 63 000 empregos cortados no setor estatal desde o início de seu mandato até 2025, segundo um relatório recente, representando uma redução substancial da força de trabalho estatal e, como consequência, diminuição das despesas do Estado. Além disso, grandes cortes orçamentários atingiram programas sociais, obras públicas e subsídios a serviços básicos, resultando em retração de setores como construção, infraestrutura e educação.
INFLAÇÃO
Uma das prioridades declaradas de Milei foi controlar a inflação crônica que atormentava a Argentina há anos. Desde 2023, havia níveis de hiperinflação de mais de 200 % ao ano, e com sua política econômica essa taxa começou a cair significativamente. Em 2025, a inflação acumulada de 12 meses chegou a cerca de 31 % e, em alguns meses recentes, o índice mensal ficou perto de níveis baixos em décadas. Esse recuo é visto pelo governo como um sucesso de política fiscal e monetária, essencial para atrair investimentos e estabilizar a economia.
Apesar desta desaceleração inflacionária, o mercado de trabalho sofreu grandes pressões. Dados oficiais indicam que a taxa de desemprego ficou em torno de 6,6 % no terceiro trimestre de 2025, ainda relativamente elevada para padrões regionais, depois de atingir até 7,9 % em períodos anteriores de ajuste. A redução de empregos públicos é uma das principais causas, mas também houve perda de trabalhos formais em alguns setores privados, enquanto o emprego informal — com menores proteções e salários — cresceu.
POBREZA
O grande feito de Milei, no entanto, está relacionado à redução da pobreza. As estatísticas oficiais reportaram que, após um pico que chegou a 52,9 % da população na pobreza no início de 2024, o índice havia caído na primeira metade de 2025 para 31,6 %. Mesmo assim, ainda tem um contingente de 6,9 % em situação de pobreza extrema.
No início de 2026, o Senado argentino aprovou uma polêmica reforma trabalhista, defendida pelo governo como forma de “estimular investimentos e formalizar empregos”, mas que foi duramente criticada por sindicatos por enfraquecer direitos, limitar greves e flexibilizar normas de contratação e demissão. Na madrugada desta sexta-feira, 20, a Câmara dos Deputados referendou a aprovação do Senado, com 135 votos a favor e 115 contra. Como era de esperar, essa reforma levou a uma greve geral de 24 horas, incluindo paralisações de transportes, serviços públicos e setor portuário, com forte oposição da principal central sindical (CGT), que vê as mudanças como um ataque aos direitos históricos dos trabalhadores.
IMPACTOS
O balanço entre possíveis efeitos positivos e negativos dessas reformas é objeto de intenso debate: Analistas pró-mercado argumentam que a redução da carga fiscal, a flexibilização laboral e a disciplina monetária tornam a Argentina mais atrativa para capital estrangeiro, potencialmente criando empregos no médio prazo e reconstruindo confiança econômica. Críticos destacam que a maior informalidade, a perda de direitos trabalhistas e a redução de proteção social deterioram as condições de vida de trabalhadores, aumentando a vulnerabilidade econômica e social.
PERSPECTIVA
As greves e mobilizações sindicais podem resultar em maior pressão política contra o governo, possivelmente forçando ajustes nas reformas ou provocando mudanças eleitorais. Ao mesmo tempo, persistem dúvidas sobre se a trajetória atual conseguirá combinar estabilidade macroeconômica com redistribuição de renda e geração de emprego de qualidade. Aliás, um dos objetivos de Milei é qualificar os trabalhadores. O desafio central para a Argentina está em Milei conseguir equilibrar estímulo ao investimento e crescimento com proteção social e redução das desigualdades, sem agravar mais ainda as tensões sociais e econômicas que marcam o país por décadas.