Passados dez anos da decisão tomada pelos britânicos de deixar a União Europeia, no movimento chamado Brexit, o sentimento predominante é de que foi tomado o rumo errado. O objetivo principal era afastar-se das decisões tomadas em Bruxelas – que envolviam todos os membros da comunidade europeia – para passar as decisões para Londres, o que significava mais autonomia para os britânicos. Isto aconteceu, porém, um dos grandes objetivos que estava por trás – que era conter a migração – não aconteceu.
Migrantes continuam cruzando o Canal da Mancha para buscar guarida em território britânico. Mas, este não é o principal problema. O mais grave foi perder as facilidades que são oferecidas pelo processo de integração, especialmente, no que loca à livre circulação de pessoas, mercadorias e serviços.
TAXAS
Pelo tratado comunitário, as pessoas podem trabalhar ou estudar em qualquer um dos 27 países que compõe da UE. Neste ponto quem mais sentiu a perda deste privilégio foram os jovens. Os quais não deram muito importância para a votação quando de sua realização. A aprovação pela saída, na ocasião da votação, foi de 51,9%. Só quando se deram conta das perdas é que os jovens perceberam o erro cometido. Um levantamento do YouGov, um dos principais institutos de pesquisa do Reino Unido, feito recentemente, mostra que 56% dos cidadãos do país consideram o Brexit um erro, contra 31% que ainda apoiam o resultado do referendo de 23 de junho de 2016.
Porém, o problema maior foi para a indústria e para o comércio, os quais tiveram que passar a colocar nos seus custos as taxas de importação ou de exportação. Imagine-se uma indústria automobilística sediada na Inglaterra, mas, que busca parte de seus componentes na Alemanha, Itália, França, etc. Tudo passou a ser com pagamento de taxas que não haviam antes. Criou-se uma burocracia alfandegária. Pode-se estender esta problemática para os setores de alimentos, medicamentos, etc.
REFLEXOS
As trocas com o continente europeu passaram a exigir trâmites aduaneiros complexos, encarecendo e atrasando importações e exportações. Os reflexos disso se fizeram sentir no aumento da inflação e, por extensão, do custo de vida para a população. O fim da livre circulação reduziu a oferta de trabalhadores em setores-chave e impôs limites de permanência para britânicos na Europa e vice-versa. Perderam os agricultores, o setor de pesca e a área de manufatura. Como resultado, uma lenta decadência de uma das maiores potências europeias.
Em 2022, após a pandemia e o início da guerra na Ucrânia, a inflação chegou a 11%, de acordo com o Escritório de Estatísticas Nacionais (ONS na sigla em inglês). Pesquisadores da Universidade de Stanford fizeram uma análise de qual seria o resultado da economia britânica se o país não tivesse saído da União Europeia. O resultado apontou que haveria um hipotético crescimento de 8% neste período.
RECUO
Números mais desanimadores são fornecidos pelo Nacional Bureau of Economic Research, o qual estimou que, no ano passado, o PIB do Reino Unido encolheu de 6% a 8%, resultado também do recuo de investidores, diante da incerteza política e econômica. Foram justamente essas incertezas que levaram à renúncia, nesta semana, do primeiro ministro Keir Starmer, que está completando dois anos na chefia do governo.
Os britânicos experimentam um sentimento apelidado de “bregret”: junção das palavras “Britain” e “regret” (arrependimento). Muitos deles saíram às ruas no final de semana pedindo uma reaproximação com a União Europeia. Afinal, os números estão mostrando que o Brexit deu errado.