A guerra deixou de ser apenas uma possibilidade distante e começa a ocupar o centro do debate entre as grandes potências. Nesta quinta-feira, 01, escrevi sobre os preparativos da Europa para uma eventual guerra com a Rússia. Agora, em uma sequência que dificilmente pode ser ignorada, os Estados Unidos anunciaram a criação de uma comissão de alto nível para estudar como serão os conflitos do futuro.
O anúncio partiu do governo Donald Trump e envolve algumas das figuras mais poderosas da política, da tecnologia e da indústria militar americana. Ao mesmo tempo, Moscou fala cada vez mais abertamente sobre como reagiria a uma agressão: com o uso de armas nucleares.
PUTIN
Na quarta-feira (30), na base militar de Quantico, o chefe do Pentágono, Pete Hegseth, anunciou o Projeto Meridian, apresentado como uma iniciativa para reunir “as melhores mentes dos Estados Unidos” para estudar o futuro da guerra. Entre os convocados está Elon Musk, que esteve na Casa Branca até 2025.
No mesmo momento, Vladimir Putin reunia o Clube Valdai, próximo ao Kremlin, para defender o papel da Rússia no mundo, acusar o Ocidente de construir uma nova “Cortina de Ferro” e voltar a advertir que Moscou poderá recorrer a armas nucleares. A sensação de que o mundo está entrando em uma fase mais perigosa deixou de ser apenas uma impressão.
PREPARAÇÃO
O Projeto Meridian não é somente um exercício acadêmico. A equipe terá 120 dias para apresentar propostas sobre armas, tecnologias e capacidades necessárias aos campos de batalha das próximas décadas. Musk dividirá a direção do projeto com Palmer Luckey, fundador da empresa de tecnologia militar Anduril, e o ex-presidente da Câmara Newt Gingrich. A iniciativa pretende antecipar os meios pelos quais inteligência artificial, drones, sistemas autônomos e outras tecnologias poderão transformar os conflitos.
É significativo que a maior potência militar do planeta esteja dedicando recursos e algumas de suas figuras mais influentes a imaginar a guerra que virá. Não significa que uma guerra mundial esteja sendo planejada, mas revela que Washington considera necessário preparar-se para cenários cada vez mais complexos. E isso ocorre justamente quando a Europa também acelera seu próprio rearmamento.
RÚSSIA
A reação da Rússia, com ameaças explícitas de uso de armas nucleares, foi motivada pela acusação de que a OTAN estaria planejando um bloqueio aéreo e naval para isolar o enclave russo de Kaliningrado, situado entre a Polônia e a Lituânia. Em uma nota diplomática informal enviada à aliança militar e reforçada por declarações do presidente Vladimir Putin, Moscou afirmou que qualquer tentativa de cortar as rotas de acesso ou atacar o território seria interpretada como uma ameaça existencial. O Kremlin declarou estar pronto para utilizar “todo o arsenal de forças e capacidades à sua disposição, incluindo armas nucleares” para defender a região.
PERIGO
O problema está justamente nessa escalada de acusações e advertências. De um lado, europeus se armam diante da ameaça russa; de outro, Moscou interpreta esse movimento como preparação para um confronto. Washington estuda as guerras futuras enquanto a Rússia faz advertências nucleares. A cada passo, aumenta o espaço para erros de cálculo.
Talvez o mais preocupante seja a mudança do vocabulário. Fala-se cada vez menos em como evitar guerras e cada vez mais em como prepará-las, vencê-las e dominar as tecnologias que serão usadas nos próximos conflitos. É compreensível que governos se preparem para proteger seus povos. O perigo começa quando a preparação militar passa a ser acompanhada pela normalização da ideia de que a guerra é inevitável.