(Artigo publicado no Correio do Povo de domingo, 13/02/11)
Na quinta-feira o presidente do Egito Hosni Mubarak frustou a população de seu país ao anunciar que não renunciaria. Na sexta-feira deu à mesma a alegria de celebrar sua renúncia. O país entra numa fase de transição e incertezas. Mas o fato é Mubarak estabeleceu uma queda de braço com os opositores e deixou temerosa boa parte do mundo árabe e mais outros países que, teoricamente, não teriam nada a ver com o país dos faraós, como Israel, EUA e muitos europeus. Por outro lado, deixou entusiasmado o Irã. A propósito, o país dos aiatolás comemorou nesta sexta-feira os 32 anos da revolução que derrubou o regime do xá Reza Pahlevi, que era o grande aliado dos EUA na região. Comemorações que foram embaladas pelo episódio do Egito, onde os líderes do Irã pretendem ver vencedora também uma revolução islâmica. A qual poderia se alastrar, como um rastro de pólvora, pelo Golfo Pérsico, atingindo as conservadoras monarquias que ladeiam suas águas, como a Arábia Saudita, Omã, Catar, Emirados Árabes Unidos, Barhein, etc.
Imaginem o que isto poderia representar, por exemplo, para os EAU, cujas principais cidades como Dubai e Abu Dahbi se tornaram marcos referenciais no mundo em termos de atrações turísticas. Aliás, turismo é uma das maiores fontes de renda do Egito. E este setor, evidentemente, está parado. Há também o problema do petróleo. Elemento fundamental de lucro para a região e vital para o abastecimento do Ocidente e do Japão. Só com a crise o preço do produto já bateu nos 100 dólares. Imagine-se se houver uma desestabilização no Egito, que é o maior país árabe. E o Egito ainda tem o canal de Suez, por onde passa o produto que chega à Europa.
No meio deste furacão está também Israel. Ao longo de sua história como Estado independente, Israel travou quatro guerras com o mundo árabe. Todas elas foram lideradas pelo Egito, que sempre entrou com o maior contingente. Em 1979, sob a mediação dos EUA, Israel firmou um acordo de paz com o Egito. Nunca mais teve que enfrentar guerra com o mundo árabe. Houve só os confrontos isolados com o Hamas, em Gaza, e com o Hizbollah, no Líbano. Daí o temor de que o Egito caia nos braços dos muçulmanos radicais, ao estilo do que aconteceu no Irã. Aliás, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, já se apressou em dizer que a revolução do Egito deixará o Oriente Médio sem os EUA e sem Israel.
O temor israelense é compartilhado pelo seu maior aliado, EUA. No entanto, chega a ser surpreendente a posição dúbia de Washington diante da crise. Os EUA tem estado envolvidos ultimamente com Iraque, Afeganistão, Paquistão e Irã e esqueceram o Egito. Não se deram conta de que estavam apoiando uma ditadura que estava se desgastando pelo tempo. Quem é que suporta 30 anos de poder? Nem Lula, no Brasil, ficaria este tempo! O que se vê é o governo americano perplexo diante da crise. Uma hora dizia confiar em Mubarak e outra hora diz que ele deve sair. Mais uma vez falharam os seus serviços de informação, que não alertaram para o que poderia acontecer no Cairo.
A propósito, os serviços de informação são cada vez mais desafiados no contexto atual, por dois agentes que transformaram o mundo: o terrorismo e a internet. O Estado-Nação estava acostumado a enfrentar seus pares em conflitos armados, mas de regras definidas e espaços delimitados. O terror rompeu com isto, pois pode atacar em qualquer lugar, a qualquer hora e vitimar quem quer que seja. E desde que inventou o homem/mulher bomba se transformou numa arma incontrolável. E agora, para desespero dos governos, especialmente os radicais, surgiram os sistemas de comunicação através da Internet,como twitter, facebook, etc. É a maneira que os jovens encontraram de participar do processo político. Aliás, a Internet já provocou um estrago pelo mundo afora, recentemente, com as divulgações feitas pelo site WikiLeaks.
Quanto ao Egito, o que se espera é que a situação se acalme, tendo em vista que a população conquistou o que mais queria: a saída de Mubarak. E que a comissão governante consiga logo conduzir o país ao caminho da democracia. E todos, interna e externamente, terão que aceitar o governo que resultar das urnas. Afinal, o país pode ser um aliado importante na região sem ser uma ditadura.
BRASIL NO ORIENTE MÉDIO
O Brasil está se envolvendo em missões no exterior cada vez mais difíceis. Além de todo o envolvimento que temos no Haiti, estamos agora iniciando uma missão de paz no Líbano. Esta missão começou na quarta-feira com a chegada a Beirute do contra-almirante Luiz Henrique Cairolli e uma equipe de oito militares. É o batalhão precursor da força tarefa marítima da Unifil, a missão de paz da ONU no Líbano, que contará com oito navios e 885 homens. Sua missão principal será evitar conflitos entre Israel e o Hezbollah, a milícia xiita radical que ocupa o sul libanês. A esquadra terá a incumbência de inspecionar navios suspeitos e impedir a entrada de armas no Líbano.
Só para citar um exemplo do risco que a esquadra corre de se meter em situações embaraçosas, lembro o caso da chamada “Frota da Liberdade”, que levava ajuda humanitária para a Faixa de Gaza e foi interceptada por forças israelenses. No conflito morreram nove integrantes da frota. Lembro também que a Marinha brasileira não tem a mínima experiência em ações deste tipo. Tanto que receberá treinamento por parte da Otan. A organização Atlântica disponibilizou para a frota brasileira o seu centro de treinamento para missões de Interdição Marinha, que funciona na baía Souda, na ilha de Creta. Lá os militares brasileiros receberão treinamento, em ações que simularão episódios que poderão acontecer na missão. E aí é de se perguntar: porque o Brasil está assumindo este risco? Em nome de uma cadeira que pretende ter de forma permanente no Conselho de Segurança da ONU? E se for, que benefícios irá trazer esta cadeira? Enfim, tudo é indagação, mas o risco de meter-se em um conflito é grande. Ainda mais em se tratando de Oriente Médio.