Concretizada a saída de Hosni Mubarak do poder no Egito, restam as especulações sobre o futuro político do país. Muitos são os questionamentos. Um deles é saber se toda aquela massa que se concentrou por 18 dias na Praça Tahrir queria a redemocratização do país nos moldes ocidentais, ou somente queria a saída do ditador? Se for a segunda hipótese, pode estar implícita aí a aceitação de uma república islâmica, no estilo do Irã, com a Irmandade Muçulmana dando a letra. Porém, mesmo num processo democrático pleno a dita Irmandade Muçulmana também pode chegar ao poder. Embora, segundo avaliação do embaixador brasileiro no Cairo, Cesário Melantonio, terá que compor com outros partidos, pois não tem mais do que 30% do eleitorado.
O que resulta mais claro do Egito é que o Exército deverá ter um papel preponderante no futuro do país. A começar pelo processo de transição, o qual estará conduzindo. E o Exército egípcio tem uma excelente relação com o seu povo. Basta ver que nos recentes acontecimentos optou pela neutralidade. Ficou à margem, o que lhe granjeou maior simpatia popular. Tanto que se viu até pessoas entregando flores para os soldados. Diante disto, talvez o melhor papel a ser desenvolvido pelo Exército seria o de levar o país até a realização de novas eleições e de uma mudança na Constituição. Mudança esta que daria ao Exército o papel de tutor de um Estado democrático e laico, como acontece na Turquia. Naquele país de predominância religiosa islâmica, conseguiram fundar uma nova república, em 1923, estabelecendo um Estado secular e dando às Forças Armadas o papel de guardião desse processo. O que foi um dos aspectos que levou a Turquia a fazer parte da OTAN em 1954.
O Egito, que deixou de ser colônia somente em 1956, teve desde então apenas três governantes, todos eles autoritários: Gamal Abdel Nasser, com o seu socialismo pan-arabista, com ligação com Moscou; Anwar Sadat, que reverteu o rumo, aliando-se ao Ocidente e se tornando o primeiro líder árabe a firmar um acordo de paz com Israel; e Hosni Mubarak, que deu sequência aos rumos traçados pelo seu antecessor. Ou seja, é um país que não conhece democracia. Vai ter que aprender a lidar com ela, se quiser adotá-la.