O voto do Brasil contra o Irã no Conselho de Direitos Humanos da ONU, nesta quinta-feira, nada mais é do que a confirmação da posição que a presidente Dilma Rousseff havia assumido antes mesmo de ascender à Presidência da República. Quando ainda candidata, ela condenara o voto do Brasil no Conselho de Segurança da ONU a favor do Irã, dizendo que não se poderia apoiar um país que discrimina a mulher. Já sob a presidência de Dilma, no dia 7 deste mês, a representação brasileira junto à Comissão dos Direitos Humanos da ONU, em Genebra, prestou uma homenagem a Shirin Ebadi, a iraniana ganhadora do Prêmio Nobel da Paz em 2003 e que é perseguida em seu país, a ponto de estar refugiada na Europa. Foi um ato explícito de condenação dos direitos humanos no Irã. O que é referendado agora por esta votação, quando o Conselho aprovou a criação de um relator especial para investigar violações de direitos humanos no Irã.
É preciso ressaltar que este não é um voto condenatório ao Irã. É apenas a aprovação de uma investigação, papel que será desempenhado pelo relator especial. Aliás, foi esta a explicação que a embaixadora Maria Nazareth Farani Azevedo deu para o seu colega iraniano Sayed Sajjadi. O que foi autorizado é apenas um primeiro passo. Com base nos levantamentos é que se poderá condenar ou não o país. Porém, sem esta conclusão, já salta aos olhos de todo o mundo o absurdo de casos como da iraniana Sakineh, condenada à morte por apedrejamento. Este deve ser um “espetáculo” como o praticado pelos talibãs, ao tempo em que estavam no poder no Afeganistão, e que se pode ver no filme “O caçador de pipas”. No intervalo de um jogo de futebol, a atração era a morte por apedrejamento de uma mulher dita infiel. Como disse Dilma Rousseff, em novembro de 2010, quando fez sua primeira manifestação sobre o Irã, “mesmo considerando os costumes de outros países, continua sendo muito bárbaro o apedrejamento de mulher”.
Então, este não é um voto condenatório neste estágio do processo, mas, por certo, o será ao final do mesmo. Até porque a homenagem a Shirin Ebadi já foi uma manifestação explícita do governo Dilma de condenação aos direitos humanos no Irã. Manifestações que, evidentemente, contrastam com o governo Lula, que teve, como todo mundo sabe, uma relação afetuosa com o presidente Mahmoud Ahmadinejad. É preciso salientar, no entanto, que a posição brasileira ao lado do Irã antecede o governo Lula. Vem desde 2001, portanto, com Fernando Henrique Cardoso, quando o Brasil resolveu dar um voto de confiança ao Irã, que ainda não era governado por Ahmadinejad, mas já era acusado de violações dos direitos humanos. Como o então governo iraniano assumira o compromisso de cooperar com a comissão da ONU com vistas ao aperfeiçoamento da questão dos direitos humanos, o Brasil passou a se abster nas votações. E o Irã chegou a permitir a entrada em seu território dos investigadores da ONU, o que ocorreu até 2005, quando assumiu Ahmadinejad e aí então tudo ficou pior. Menos para Lula e Celso Amorim que continuaram apostando no governante iraniano.
A mudança de política com relação ao Irã deixa explícitos os dedos da presidente Dilma e do chanceler Antonio Patriota. Seguramente que não tem influência nenhuma de Marco Aurélio Garcia, que é da linha Lula-Amorim e que segue como assessor da presidência para assuntos internacionais. Resta ver se ele vai ter influência quando tivermos que tomar alguma posição mais clara com relação a Hugo Chávez e seus parceiros bolivarianos e, especialmente, em relação a Cuba. Aí nós vamos ter a real dimensão sobre a política externa brasileira. Se mudou completamente ou se esta mudança é apenas com relação ao Irã.