Pelo que se observa, Cuba procedeu uma “renovação” na cúpula diretiva do Partido Comunista, por ocasião da realização, esta semana, de seu sexto congresso. O cargo de primeiro-secretário, que era de Fidel Castro, que está com 84 anos, foi passado para seu irmão mais novo, Raúl, de “apenas” 79. O segundo cargo na hierarquia foi passado para José Ramón Machado, de 80 anos, um médico veterano da guerrilha de Sierra Maestra e que foi o primeiro ministro da Saúde do regime que se instalou em 1959. Como se vê, “renovação” total. É de se perguntar: será que o partido não está formando novas lideranças para suceder os velhos revolucionários? Pelo jeito, não está! Isto que durante o congresso, Raúl Castro disse que altos cargos políticos serão limitados a dois mandatos de cinco anos e prometeu o ‘sistemático rejuvenescimento’ do governo. Ele disse que a liderança do partido precisa de renovação e que deveria se submeter a uma severa auto-crítica.
Raúl Castro prometeu também que jamais deixará o capitalismo voltar a Cuba. Porém, ao mesmo tempo, o sexto congresso do PC autorizava a venda de imóveis e de automóveis por particulares. Atividade própria do capitalismo. Também foi decidido incentivar os cidadãos cubanos a estabelecerem seus próprios negócios. Outra atividade do capitalismo. E também foi decidido abrir mais o mercado cubano a empreendimentos com empresas de fora, logicamente, capitalistas. Por outro lado, foi mantida a decisão de demitir 500 mil funcionários públicos e de acabar com a caderneta que permite a compra de gêneros altamente subsidiados. Nota-se, portanto, que passa a haver um enxugamento do Estado e uma ampliação das possibilidades do trabalho por conta própria, ou seja, do empreendedorismo. Busca-se romper com aquela situação de que o Estado faz de conta que paga e o cidadão faz de conta que trabalha. Afinal, quem pode produzir ganhando 15 dólares ao mês. A saída para Cuba tem sido o turismo. Desde que o governo estabeleceu parcerias com redes internacionais de hotéis para exploração do turismo a situação começou a mudar no país. E o sonho de todo o cubano passou a ser trabalhar de garçón em Varadero, porque, ganhando um dólar de gorjeta por dia – e ganha muito mais – já terá conquistado o dobro do seu salário. E hoje a possibilidade que se abre para quem quiser se estabelecer por conta própria será vender ou prestar serviços para turistas, porque estes terão condições de pagar, diferentemente da grande maioria dos cidadãos cubanos.
Então, o que se deduz é que o regime cubano busca imitar, dentro do possível, a China. Mantém um governo de força, comunista, mas abre a economia ao mercado, o que subentende-se, ao capital. É uma forma disfarçada de dizer que o regime segue socialista e que não se rendeu ao capitalismo. E, formalmente, Fidel Castro está afastado de todo o processo decisório, no entanto, diante da manutenção dos veteranos na cúpula, não resta dúvida que, sempre que uma decisão importante precisar ser tomada, haverá a consulta ao velho líder.
Porém, para não dizer que não houve qualquer renovação, dois novos nomes ascenderam ao birô de 15 membros, que é núcleo duro do partido. São eles, Marino Murillo, de 50 anos, que tem sido o encarregado das reformas econômicas, e Adel Izquierdo, que é o ministro da Economia. Este já com os seus 65 anos. De qualquer forma, se o próximo congresso do PCC levar tanto tempo quanto este para ser realizado – 14 anos – dificilmente algum dos atuais integrantes da alta cúpula estará presente.