O presidente Barack Obama estabeleceu nesta quinta-feira uma mudança na política dos EUA no que toca à questão que envolve israelenses e palestinos. Ao defender a criação de um Estado Palestino nas áreas estabelecidas pelas fronteiras de 1967, Obama está seguindo o que pensa a maior parte da comunidade internacional, mas está, teoricamente, contrariando o atual governo de Israel. E nunca, ao longo dos 63 anos da existência do Estado de Israel, um governo americano se colocou em contraposição aos governantes israelenses. Mas Obama já começou por enfatizar sua determinação em proteger as fronteiras do Estado judeu.
O fato é que o acordo de paz firmado entre israelenses e palestinos, em 1993, sob a mediação dos EUA, já estabelecia a formação de dois estados, com os palestinos ocupando as áreas determinadas pelas fronteiras de 1967. Para a concretização do que fora acordado, o governo de Israel deveria desmantelar as colônias judaicas estabelecidas em território palestino. O acordo começou a ser implementado, com a concessão de autonomia para a algumas cidades palestinas, mas parou pela ação dos radicais judeus que, não só não aceitaram desmantelar suas colônias, como ainda assassinaram o primeiro-ministro Yitzhak Rabin, responsável pelo acordo.
Desde então não houve mais avanço nas negociações. E os sucessivos governos de Israel trataram de estabelecer mais assentamentos em territórios de palestinos. Uma determinação que mantém o atual primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Vale lembrar que George Bush falava também na formação de dois estados, mas ressaltava que a volta às fronteiras de 1967 “não era realista”. Mas, apesar da aparente posição firme de Obama frente a Israel, fica claro que ele condiciona a declaração do Estado Palestino à aprovação de Israel. Tanto, que se posicionou contra a intenção da Autoridade Nacional Palestina de levar o tema à votação da ONU em setembro, conforme quer Mahomoud Abbas. Ou seja, vetou um Estado Palestino sem a aprovação de Israel. Busca impedir que os palestinos mobilizem a comunidade internacional com vistas a conseguir o seu Estado. Obama, até agora, não conseguiu sequer convencer Netanyahu a parar com as construções de novas casas na Jerusalém Oriental.
O governo de Israel diz que não pode mais negociar com os palestinos depois da união entre o Fatah e o Hamas, porque este último não reconhece a existência de Israel. Ora, este é um problema não para Israel, mas para a Autoridade Nacional Palestina administrar. A ANP reconhece a existência de Israel e se propõe a negociar. E é com ela que Israel negocia. Que exista uma facção interna que pense diferente, isto é problema para ser administrado internamente pelos palestinos. Ou, por acaso, em Israel os judeus ortodoxos que integram o Parlamento aceitam a formação do Estado Palestino? Claro que não. Nem por isto o governo israelense deixa de querer uma negociação.
O fato é que, na prática, já existe um Estado Palestino. Estive recentemente em Israel e fui de Jerusalém para Belém. É o mesmo que sair de um país para outro. Dois países em guerra, diga-se de passagem. Cruza-se a “fronteira” delimitada por um muro de sete metros de altura, ao longo do qual existem guaritas com soldados fortemente armados. Do outro lado é um outro “país”, com sua administração própria, sua polícia própria, etc. A moeda que é o mesmo shekel israelense, mostrando a dependência que há de Israel no aspecto econômico-financeiro. Então, estes dois aspectos precisam ser levados em conta. Há um outro país, isto é uma realidade. Mas este país também precisa se conscientizar que depende de Israel para sobreviver. E Israel precisa se dar conta de que depende da existência daquele outro país para poder viver em paz.
Voltando a Obama, o fato é que, depois de ter liquidado com Bin Laden, ele quer uma aproximação com o mundo muçulmano. E uma das principais bandeiras desse mundo é a causa palestina. Embora seja bom de discurso, Obama não empolga o lado palestino. Assim como não convence com a sua visão sobre a Primavera Árabe. Até porque esta visão obedece à distorcida política dos EUA para a região, a qual exige mudança e democracia para a Síria, mas cala diante das violações aos direitos humanos na Arábia Saudita. Aliás, este um país em que as mulheres resolveram desafiar o sistema que, em pleno ano de 2011, as proíbe de dirigir automóveis. As sauditas também estão se valendo do Twitter e do Facebook para convocar as mulheres para este enfrentamento. O que se vê é Obama fazendo inflamados discursos contra governos como da Síria, do Irã e da Líbia – onde, aliás, está agindo militarmente -, e calar frente ao que acontece na Arábia Saudita, Bahrein, Iêmen e outros aliados, que são governos absolutistas, estando muito longe da democracia que Obama diz defender para o Oriente Médio.