Pouco antes de completar dois anos de seu afastamento do governo, Manuel Zelaya voltou para Honduras. Lembram dele? É aquele que foi corrido do poder e que depois refugiou-se na embaixada do Brasil, onde se hospedou por cerca de meio ano sem pagar nada. O golpe em Honduras foi uma das questões mais controvertidas dos últimos tempos no âmbito regional. Zelaya fora destituído pelo Congresso e pelo Judiciário, porque iria realizar no dia seguinte um plebiscito que violava a Constituição. O problema, no entanto, foi que os militares ao invés de prender o presidente para que fosse levado a julgamento, o seqüestraram e o largaram na Costa Rica, violando a Constituição do país que não permite o desterro. Assumiu o governo o presidente do Congresso Roberto Micheletti. Depois de um certo tempo, Zelaya voltou ao país e refugiou-se na embaixada do Brasil, que defendeu o seu direito de voltar à presidência. Não houve acordo e o impasse foi resolvido com a eleição de Porfírio Lobo, um fato que não foi aceito por muitos países, inclusive o Brasil. Como disse Kevin Casas-Zamora, pesquisador do Instituto Brookings e ex-vice-presidente da Costa Rica, “a esta altura é tão absurdo quanto hipócrita continuar negando reconhecimento ao governo de Lobo, nascido de eleições bem mais corretas que as do Irã, que países como Brasil e Venezuela se apressaram a aceitar”.
Pois no domingo que passou Zelaya voltou ao país. Seu retorno se deu graças a uma ação intermediada pelos presidentes da Venezuela, Hugo Chávez, e da Colômbia, Juan Manoel Santos. Aliás, uma ação que se constitui numa mudança importante, tendo em vista que os dois países sul-americanos viviam em confrontação ao tempo de Álvaro Uribe no governo colombiano. Foi graças também a essa mediação que Honduras foi reintegrado, nesta quarta-feira, à Organização dos Estados Americanos, organismo do qual estava suspenso desde a deposição de Zelaya.
E também nesta quarta-feira tivemos outro episódio marcante nas novas relações entre Colômbia e Venezuela. Guillermo Enrique Torres, de 57 anos, conhecido como Julián Conrado e mão direita de Raúl Reyes, foi preso na Venezuela, numa ação conjunta das forças de segurança de ambos os países. Vale lembrar que Raúl Reyes, então líder das Farc – Forças Armadas Revolucionárias Colombianas, foi morto em março de 2008, pelo Exército da Colômbia, numa ação desenvolvida em território do Equador. A ação provocou um incidente diplomático entre os dois países, tendo Hugo Chávez tomado as dores pelo Equador e anunciado que seu Exército estava de prontidão na fronteira com a Colômbia, numa atitude ameaçadora.
Pois agora, o sucessor de Reyes é preso na Venezuela, numa manobra conduzida pelo Exército venezuelano. O fato demonstra duas coisas. Um delas, algo que já denunciava Álvaro Uribe quando era presidente da Colômbia: de que os integrantes das Farc locomoviam-se livremente dentro do território venezuelano. Outra, que mudou substancialmente o relacionamento entre Colômbia e Venezuela desde que Juan Manuel Santos assumiu o governo de Bogotá. O que é muito bom para a região e poderá ajudar de forma decisiva a acabar com a nefasta guerrilha das Farc que, com o apoio do narcotráfico, há meio século espalha o terror pela Colômbia. O surpreendente é ver Hugo Chávez prendendo lideranças das Farc, movimento pelo qual ele sempre mostrou simpatia e ajudou quando possível. Terá ele mudado? Ou isto é só uma estratégia?