O presidente eleito do Peru Ollanta Humala escolheu o Brasil como primeiro país a visitar após sua vitória, tendo sido recebido aqui pela presidente Dilma e pelo ex-presidente Lula. Veio agradecer o apoio e mostrar que não estava blefando durante a campanha eleitoral, quando disse que o objetivo de seu governo seria seguir o modelo brasileiro. E para deixar bem claro que havia se desvinculado totalmente de Hugo Chávez, traçou um roteiro pela América do Sul, onde a Venezuela é o último país a ser visitado.
Na realidade, as relações do Peru com o Brasil vêm num crescendo. Nos últimos anos, o Peru apresentou um crescimento do seu PIB significativo, que chegou em 2010 a 8%. E o País se tornou um importante parceiro do Brasil, a ponto de estar sendo construída uma ligação rodo-ferroviária, que começa no Acre, cruza a Amazônia peruana, os Andes e chega até o Pacífico. É uma ligação que permite ao Brasil levar os seus produtos não só ao mercado peruano, mas também aos mercados das três Américas e do Pacífico. Trata-se de uma ligação crucial para a ampliação de negócios por parte do Brasil. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, 1% das exportações brasileiras são vendidas ao Peru. Em 2010, foram exportados US$ 2 bilhões, 35% mais que no ano anterior e o equivalente a um quinto de todas as importações feitas pelo Peru. A produção em escala dos artigos brasileiros permite que entrem no território peruano com vantagens competitivas, conforme aponta o levantamento.
O Sebrae fez um estudo sobre as potencialidades do mercado peruano, o qual mostrou que há enormes possibilidades, principalmente para os estados brasileiros vizinhos, como Acre, Rondônia e Mato Grosso. “Estudos como este apontam oportunidades para as micro e pequenas empresas dos setores estudados e os ajustes que elas precisam realizar para se inserirem de forma competitiva internacionalmente. É importante lembrar que a presença no Peru pode ser uma escala para o mercado andino, da costa oeste dos Estados Unidos e da Ásia”, observa Paulo Alvim, gerente de Mercado e Serviços Financeiros do Sebrae.
Mas, diante do crescimento extraordinário do Peru nos últimos tempos é de se perguntar sobre o porque de o atual presidente Alan Garcia não ter encaminhado um sucessor. Pois, a alegação é de que, diferentemente do que houve no Brasil, no Peru o resultado do crescimento ficou concentrado na elite do país. As camadas mais pobres não se beneficiaram deste crescimento. Daí, inclusive, o baixo índice de popularidade de Garcia, e a divisão que se estabeleceu no país, com a elite de Quito apoiando Keiko Fujimori e os nativos do Altiplano dando o suporte a Humala. Caberá agora a Humala fazer a distribuição de renda no país. No mínimo, com um “bolsa família”.
NOBEL DA PAZ
O Brasil está recebendo também a iraniana Shirin Ebadi, Prêmio Nobel da Paz, contestadora do regime e que nesta segunda-feira estará aqui em Porto Alegre participando do seminário Fronteiras do Pensamento. Trata-se de uma figura marcante, por ser a primeira mulher a ser elevada ao cargo de juiz no Irã. Mas isto aconteceu ao tempo do xá Reza Pahlevi, antes da Revolução Islâmica de 1979. Quando os aiatolás assumiram ela foi detonada do cargo, porque, no entender deles, mulher não tem capacidade para julgar.
Radicada em Londres, ela vem desenvolvendo uma campanha internacional contra as atrocidades cometidas em seu país contra a mulher. Uma campanha que ganhou a adesão da presidente Dilma Roussef, quando esta se manifestou publicamente contra o apedrejamento de mulheres no Irã. Inconcebível, portanto, que Dilma tenha se recusado a receber agora Shirin. Não foi uma recusa formal. Apenas alegou-se a tradicional desculpa de falta de lugar na agenda. Mas, para bom entendedor, meia palavra basta. O fato é que Dilma perdeu a oportunidade de marcar mais o distanciamento de sua política com relação ao Irã da política de Lula.