O presidente Barack Obama decidiu retirar 10 mil soldados americanos do Afeganistão este ano e mais 23 mil até setembro de 2012. Com isto estará retirando o contingente de 33 mil que mandou para lá no fim de 2009, com o objetivo de incrementar o combate aos milicianos do Talibã e aos guerrilheiros da Al Qaeda. Esses soldados foram se somar aos 70 mil que já estavam lá. No entanto, nem com esse total de 100 mil soldados em solo afegão os EUA conseguiram avançar no seu objetivo. Obama disse que os objetivos no Afeganistão já foram alcançados. Doce ilusão. Os EUA não conseguiram conquistar os corações e as mentes dos afegãos, porque suas ações na caça aos guerrilheiros redundou, em muitas e repetidas vezes, na morte de civis afegãos, incluindo-se mulheres e crianças.
O único feito significativo foi a captura e morte de Osama Bin Laden. E esse episódio foi aproveitado para marcar o início da retirada. Afinal, o mote da campanha do Afeganistão, lançado em outubro de 2001 por George Bush foi a captura de Bin Laden. Bush conseguiu tirar o Talibã do poder, mas não o destruiu. Nem tampouco destruiu a Al Qaeda e nem pegou Bin Laden. Este feito coube a Obama. E agora ele aproveita para dizer que o objetivo foi alcançado, depois de um gasto de meio trilhão de dólares, e que é hora de investir no cidadão americano. Uma colocação que desagrada a indústria da guerra, mas que pode render bons votos na próxima eleição.
O objetivo era deixar um Afeganistão em segurança com um governo aliado. O governo aliado fica, sob Hamid Karzai, mas sob enorme insegurança. É de se prever que sem a presença americana o Talibã possa retomar o poder. Daí então, dez anos de guerra e meio trilhão de dólares dispendidos terão sido, salvo a eliminação de Bin Lade, para nada. É por isto que a saída americana não será assim tão apressada, como muitos estão insinuando. A retirada total é para ser até 2014. O que significa que tem mais três anos e meio pela frente. Porém, nem mesmo depois dessa data haverá uma saída absoluta. Já se prevê que, pelo menos cerca de 30 mil soldados permanecerão em solo afegão. Por dois motivos. Um, para não descontentar de forma integral os falcões da guerra, que agora estão sendo contrariados. E outro, para não deixar o governo aliado do Afeganistão à mercê do nefasto Talibã. Aliás, o retorno do Talibã será o mesmo que levar o Afeganistão novamente para a idade das trevas. Deu para se ter uma pequena amostra da maneira dos talibãs de governar no filme “Caçador de Pipas”. Ali se viu que o divertimento dos homens no intervalo de uma partida de futebol era jogar pedras – até matar, obviamente – em mulheres acusadas de adultério ou outras coisas.
O problema, no entanto, é que os EUA correm o risco de terem que fazer uma composição com o Talibã. O secretário da Defesa Robert Gates e o próprio presidente afegão Hamid Karzai, já disseram que os EUA estão negociando com o Talibã. Não se sabe o que poderá resultar duma negociação dessas, no entanto, ter que compor um governo com o Talibã, depois de dez anos de guerra, não deixará de ser humilhante para a maior potência do mundo.
No imediato, no entanto, Obama está vislumbrando a sua reeleição no ano que vem. Antes do pleito ele precisava cumprir sua promessa de campanha da eleição anterior, que era a retirada das tropas americanas do Afeganistão. Começa a retirada e aproveita para fazer o proselitismo, dizendo que vai aplicar o dinheiro para o benefício do cidadão americano. Seria um bom dinheiro, pois os EUA, segundo dados do Pentágono, gastam US$ 10 bilhões a cada mês com o Afeganistão. Porém, na prática, sabe-se que não se faz uma simples transferência de dinheiro. Até porque, como já coloquei anteriormente, a saída será parcial. E o pior para Obama é que, internamente, em seu país, o desemprego não tem jeito de decrescer. Segue acima dos 9%, um índice mortal para quem quer reeleição. Além disto, dados do Federal Reserve, o Fed, apontam que os índices da economia pioraram e podem persistir no próximo ano. Ou seja, mar turbulento no caminho eleitoral de Obama.