Ollanta Humala assumiu a presidência do Peru jurando cumprir a Constituição de 1979. No entanto, a carta que está em vigor no país foi editada em 1993, sob os auspícios do então presidente Alberto Fujimori, que hoje está preso devido às falcatruas que praticou. Está certo que a Carta de 1979 é mais liberal e mais democrática, porém, não está vigente. Com o que, conforme dizem os juristas, salvo melhor juízo, o presidente assumiu desprezando a atual Constituição.
Mas Humala assume em meio a muita expectativa e muitas possibilidades de fazer um bom governo. Isto se dá porque, em primeiro lugar, o Peru é o país das Américas que vem experimentando o maior crescimento. Seu PIB tem crescido a uma média de 7% nos últimos cinco anos. O resultado do crescimento não tem se refletido em boa parte da população. O primeiro passo para reverter esse quadro será a implantação de um programa semelhante ao Bolsa Família, colocado em pratica por Lula no Brasil e que hoje serve de referencial até para o Fundo Monetário Internacional. Humala, que se diz seguidor de Lula, já tem o parâmetro do Brasil para colocar seu programa em prática. Aliás, a inspiração no governo de Lula no Brasil, deixando de lado o modelo de Chávez na Venezuela foi um dos grandes avanços políticos de Humala. Foi com base nessa mudança que ele conseguiu a vitória eleitoral.
E Humala está fazendo tudo muito parecido como fez Lula. Deu o mesmo recado de Lula ao mercado ao manter como presidente do Banco Central o economista liberal Julio Valarde e na pasta das Finanças o atual vice da mesma, Luis Miguel Castilha. Acomodou a esquerda mais radical nos ministérios de Relações Exteriores, da Mulher, do Ambiente e de Educação. E, assim como Lula colocou o cantor Gilberto Gil no Ministério da Cultura, ele colocou a cantora Suzana Baca na mesma pasta. E, como Lula, tratou de fazer aliança com adversários de peso relativo. No caso, com o ex-presidente Alejandro Toledo. As 21 cadeiras da Coalizão Peru Possível de Toledo se somarão às 47 da aliança Ganha Peru de Humala, dando-lhe a maioria no Parlamento de 130 membros. Mesmo assim terá que fazer uma ginástica para administrar esta composição de interesses opostos.
Humala terá que administrar também problemas de cunho ambiental. Só no mês de junho, segundo dados da Defensoria Pública do país, foram registrados 217 conflitos nessa área. Agora, por exemplo, está diante do caso das mortes de dois brasileiros, um geólogo e outro engenheiro, no departamento de Amazonas. Eles trabalhavam no pré-projeto de construção de uma hidrelétrica na região. E as mortes podem estar ligadas às ações dos habitantes locais que são contrários à construção. Há cerca de um mês, o governo de Alan Garcia teve que revogar a concessão dada à mineradora canadense para se estabelecer na localidade de Puno, no sudeste do país, porque os protestos dos moradores resultaram em seis pessoas mortas. Garcia também cancelou a concessão temporária dada às brasileiras OAS e Eletrobrás para construírem a hidrelétrica Inambari, uma obra estimada em US$ 4 bilhões. Humala disse em seu discurso de posse que pretende diminuir a pobreza gerando o desenvolvimento. Para isto precisará romper com os obstáculos a empreendimentos como esses, que são vitais para a geração de energia. Humala precisará de um pouco da “lábia” de Lula para convencer as comunidades que são contra os projetos. Este será mais um de seus grandes testes.
No mais, será aprimorar as relações com o Brasil, que vem num crescendo, a ponto de estar sendo construída uma ligação rodo-ferroviária, que começa no Acre, cruza a Amazônia peruana, os Andes e chega até o Pacífico. É uma ligação que permite ao Brasil levar os seus produtos não só ao mercado peruano, mas também aos mercados das três Américas e do Pacífico. Trata-se de uma ligação crucial para a ampliação de negócios, por parte do Brasil para chegar ao Pacífico, e do Peru para chegar ao Atlântico. Sem contar o intercâmbio entre os dois países, que cresceu 35% em 2010 com relação ao ano anterior. Enfim, Humala poderá usar o peso, a influência e a experiência do Brasil para governar.