A Inglaterra viveu quatro dias e quatro noites de distúrbios como há muito não se via. Estes protestos, é preciso dizer desde logo, têm dois cunhos: um, o social, dos jovens desesperançados por causa do desemprego e da diminuição dos benefícios sociais. E o outro, o da baderna, daqueles que se aproveitam da ocasião para saquear e para destruir. Como disse ao jornal “Independent” Darryl Seibel, que é o responsável pela Comunicação dos Jogos Olímpicos de Londres, o que acontece “não é um reflexo de Londres, mas do mundo que vivemos hoje”.
Uma das verdades é que há um cunho social nos protestos que se espalharam pelo país. E vêm na esteira da crise que se abate sobre a Europa. A Inglaterra não é um dos países que mais sentem. Mas é um país aonde a população vem, gradativamente, perdendo o seu poder aquisitivo, assim como algumas importantes conquistas sociais. A saúde e a educação, por exemplo, que eram totalmente gratuitas e de primeiro mundo, hoje já demandam algum pagamento. Não é sem razão que um líder comunitário londrino disse que as pessoas protestam porque estão frustradas. E que isto acontece porque há uma comunidade com alto índice de desemprego e que presencia cortes na assistência às crianças. O índice de desemprego entre os jovens britânicos chega a 25%.
Não é diferente a situação na Espanha, onde o país viveu, a partir dos anos 1990, a ilusão de um crescimento que não teve sustentabilidade. As cidades espanholas se tornaram grandes canteiros de obras, refletindo a pujança do desenvolvimento que chegava. Só que, na esteira desse crescimento veio a crise imobiliária, tal qual nos Estados Unidos. E o resultado foi o mesmo: prédios inacabados e imóveis tendo que ser devolvidos. A Espanha passou a ser recordista européia em termos de desemprego. A taxa é de 24% no geral, porém, entre os jovens até 24 anos chega a 46%. Ou seja, quase a metade desse contingente esta desempregada. Passando-se pela Itália, França, Grécia, etc, chaga-se a constatações semelhantes. Índices não tão altos, mas conseqüências igualmente nefastas.
Então, por aí se pode entender a razão dos protestos, mas não se pode admitir a desordem que tem acompanhado as manifestações. Sim, porque, protesto é uma coisa e baderna é outra. E esta baderna é mostrada pelos saques a lojas e supermercados e pelos incêndios a lojas e residências. E aí é que vem o que coloca Seibel, pois o que acontece na Inglaterra é o mesmo que acontece no Rio, quando o trem da Central do Brasil atrasa e a massa resolve colocar fogo no trem. Ou quando o caminhão de transporte tomba e a mesma massa aproveita para roubar a sua carga. Em Londres o que houve não foi saque a supermercado para levar comida, mas para carregar tênis, celular, lap top, etc.
O fato é que vivemos uma crise econômica, sim. Mas vivemos também uma crise de valores, onde o aluno não respeita mais o professor. E os pais, sem ter mais o acompanhamento dos filhos, se colocam sempre ao lado destes para compensar a sua ausência. Vivemos um momento em que os políticos roubam e recebem o respaldo de seus pares, que ameaçam a sustentação política da presidenta caso ela siga com as investigações sobre a roubalheira. Vivemos um momento em que uma juíza que combate o tráfico é assassinada pelos traficantes, sem ter a proteção do Estado. Num caso que não é único, porque pelo país todo temos juízes ameaçados de morte. E, talvez, como reflexo maior da degradação da sociedade em que vivemos, tivemos o exemplo de Vila Mariana, em São Paulo, onde constitui-se uma gangue de meninas de 11 a14 anos para praticar assaltos. Ou seja, não é um caso só de Londres, como disse Seibel, e nós brasileiros, por caminhos mais tortuosos, temos muito mais com o que nos preocupar.