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A Otan, Organização do Tratado do Atlântico Norte, conseguiu da ONU autorização para bombardear por ar as tropas e instalações de Kadafy, sob o argumento de que iria agir para evitar um banho de sangue na Líbia. O que aconteceria, na visão da organização atlântica, se Kadafy reprimisse os rebeldes, que iniciaram o movimento em Benghazi. Pois, de acordo com a informação do Conselho Nacional de Transição, ou seja, o órgão máximo dos rebeldes, o número de mortos na Líbia, desde que começou a insurgência, há seis meses, já passa de 20 mil. A pergunta que cabe fazer é se 20 mil é um número insignificante para a Otan. Ou isto não se constitui num massacre? Sem contar o que as imagens procedentes de Trípoli estão mostrando, ou seja, integrantes das facções em disputa executando seus opositores, numa verdadeira carnificina.
É sempre importante lembrar, mais uma vez, de que um massacre explícito está sendo promovido pelo ditador da Síria Bashar al-Assad, que, entre outras atrocidades, mandou seus tanques e navios bombardear a cidade litorânea de Latakia. Mandou mais de 20 tanques para a cidade, que atacaram a população por terra, enquanto que navios de guerra bombardeavam desde o litoral. Evidente que o número de civis mortos é elevado, segundo dados do Observatório Sírio de Direitos Humanos. O absurdo da situação é o governante estar bombardeando o seu próprio povo, como se fosse uma guerra contra um país inimigo. E para isto nada foi feito. Lógico que uma das explicações para a contundente ação na Líbia e o descaso para com a Síria está, entre outras coisas, no fato de que o país de Kadafy é um dos maiores produtores de petróleo do mundo, enquanto que o país de Assad não possui o precioso líquido. Não foi sem razão que, quando o CNT acenou com uma maior participação das empresas européias na exploração do petróleo líbio, as ações da italiana Eni subiram 7% em um único dia. O que significa dizer que a Otan está agindo na Líbia, entre outras coisas, em nome dos interesses das petrolíferas dos países membros da organização. Sabe-se que há também o temor de que uma Síria sem Assad possa ser ainda pior para os interesses do Ocidente e de Israel.
Quanto à Líbia, fica o questionamento sobre se haverá ou não democracia depois da deposição do ditador. Não se pode esquecer que democracia é algo estranho no mundo árabe e que no Egito e na Tunísia já foram feitas revoltas com o mesmo objetivo, os ditadores foram derrubados, mas o sistema autoritário não mudou. Na Líbia a Otan fica na obrigação moral de tutelar a passagem para um regime democrático, da mesma forma como ficaram os EUA no Iraque. Só que, como no Iraque, seguramente, que despontarão no pós-guerra as divergências entre os componentes da revolta. Afinal, ali estão militares, socialistas, radicais islâmicos, cristãos, berberes e outras representações étnicas e tribais. O diferencial para o CNT poder reorganizar a Líbia depois que assumir é que dinheiro não faltará. É só implementar o que já começou a ser feito: trazer de volta para o país a fortuna que Kadafy espalhou pelo exterior.