– j.soares@cpovo.net –
Os Estados Unidos chegam aos dez anos do 11 de setembro em meio a temores de um novo atentado, ao recrudescimento da crise que desde 2008 se abate sobre o país, à introdução de um novo pacote de injeção de dinheiro na economia para tentar gerar emprego, à indagações sobre como sair das duas guerras – Afeganistão e Iraque – deflagradas em nome do combate ao terror e ao recrudescimento de um radicalismo de direita no país, representado pelo Tea Party.
Pois bem, quando dos atentados de 2001, a grande indagação que passou a ser feita nos Estados Unidos era: “porque eles nos odeiam?” A resposta a esta questão está, em parte, no livro de Samuel Huntington, “O Choque de Civilizações”. Explica o autor que há uma dificuldade enorme de o Ocidente entender o Oriente, sendo a recíproca verdadeira. Há uma diferença enorme de cultura, de religião e de interesses que põe os dois lados em permanente confrontação. Ainda hoje, tudo é visto sob o prisma das Cruzadas. E nessa visão tem despontado o radicalismo. Foi o radicalismo islâmico que levou os fanáticos a cometer os atentados nos EUA e é o radicalismo americano que generaliza e busca travar uma guerra contra o islã. Não é sem razão que o presidente Obama teve que fazer um pronunciamento, para dizer que o seu país não está em guerra contra o islã. Que a guerra é contra a Al Qaeda e que, “como um país de imigrantes, os EUA dão as boas-vindas a pessoas de todos os países e culturas”. É a tentativa de sufocar algo que é latente dentro do país, ou seja, a repulsa aos muçulmanos.
Na realidade, é difícil fazer essa separação. Ainda mais quando começa a ganhar força a teoria de que a crise que se abate hoje sobre o país é resultado, em boa parte, dos gastos com as guerras travadas em nome do combate ao terror. É sempre bom lembrar que estudo feito pelo Instituto Watson de Estudos Internacionais da Brown University, indicam que os custos financeiros das duas guerras variam entre US$ 3,7 trilhões e US$ 4,4 trilhões. E não há a mínima garantia de que, após a retirada dos soldados americanos, o Iraque e o Afeganistão irão continuar sob governos aliados dos EUA. Só depois de quase dez anos conseguiram eliminar Bin Laden, mas o Talibã, que lhe dava guarida ao tempo dos atentados, está na iminência de retomar o poder em Cabul. E a Al Qaeda, que antes estava só no Afeganistão, hoje atua também no Iraque, no Paquistão e estendeu seu braço para o Iêmen e para o norte da África. Ou seja, uma década, milhares de vidas e trilhões de dólares perdidos. Para prevenir-se de novos atentados, Obama precisa confiar na CIA, uma organização que não foi capaz de detectar nada a respeito do 11 de setembro, muito embora a Al Qaeda já tivesse cometido atentados contra o World Trade Center em 1993 e em 1997.
Assim, em meio a todos os temores e dissabores, Obama lança um novo plano de injeção de dinheiro no país, tentando minimizar o problema do desemprego, que segue batendo nos 9,1%. São US$ 477 bilhões que envolvem desde isenções tributárias sobre a folha de pagamento, até verbas para reformas de escolas, rodovias e construção de pontes. É a busca da mesma solução adotada por ocasião da Grande Depressão de 1929, ou seja, o Estado como indutor do crescimento. Mas, para ver o seu plano colocado em prática, Obama precisa da aprovação dos republicanos. E aí despontam os radicais do Tea Party que, para ver o presidente, seu opositor, derrotado na próxima eleição, são capazes de colaborar para que a crise não seja minimizada. Considerando que desemprego equivale a miséria, fome e morte, a atitude dessa ala republicana se equivaleria a dos radicais do islã.