Turquia e França entraram em rota de colisão. Na realidade, a França comprou uma briga com a Turquia ao ter o seu parlamento aprovado uma lei, proposta pelo partido do presidente Nicolas Sarkozy, que torna crime a negação do genocídio armênio. Mais explicitamente, quem negar publicamente na França o genocídio na Armênia pelos turcos será punido com um ano de prisão e multado em 45 mil euros. A lei ainda terá de passar no Senado para ter vigor, mas já provocou uma forte reação da Turquia, tendo o primeiro-ministro Recep Erdogan declarado que “isto é a turcofobia e a islamofobia para ganhar votos”. E na sequência veio a acusação de a França ter cometido genocídio na Argélia.
Ambos os fatos levantados tem a ver com a história. A Turquia sofre a acusação de ter massacrado 1,5 milhão de armênios, em 1915, durante a Primeira Guerra, no que é considerado o primeiro genocídio do século 20. Foi o massacre da população armênia do Império Otomano, do qual a Turquia é o Estado sucessor. A Turquia sempre rejeitou com veemência o termo genocídio e admite a morte de 300 mil pessoas. O que, convenhamos, não deixa de ser genocídio. Trata-se de um episódio do qual os turcos detestam falar.
Já a guerra na Argélia foi travada de 1954 a 1962, na luta dos argelinos pela sua independência da França. Fontes argelinas calculam em cerca de um milhão de mortos, enquanto que os franceses falam em 350 mil mortos. Em sua réplica à França, Erdogan disse que “na Argélia, a partir de 1945, cerca de 15% da população foi massacrada pelos franceses. Isto é genocídio”.
O fato é que estamos diante do “roto falando do descosido”. Tanto França quanto o Império Otomano foram potências colonizadoras e, como tal, exploradoras e massacradoras de seus opositores. Um não pode querer acusar o outro. E não há acusação impune, como quer o ministro do Exterior da França Alain Juppé, dizendo esperar que “os amigos turcos não exagerem na reação”. O resultado é que a superaquecida economia turca, que se tornou um dos maiores parceiros da França, já decidiu suspender a compra milionária de 13 aviões da Airbus.