Acidentes envolvendo trens na Argentina não constituem novidade. Antes da ocorrência desta quarta-feira, tivemos um choque que envolveu dois trens e um ônibus, em setembro último e que deixou 11 mortos. Antes disto, outros episódios se sucederam, ocorrendo praticamente um acidente a cada ano, ao longo da última década. Se poderia dizer que os acidentes ocorrem porque a Argentina é um dos raros países da região que continuou a privilegiar o transporte ferroviário. O que não tem nada a ver. Na Europa a maior parte do transporte, tanto de cargas quanto de passageiros, é feito por trem e não se tem notícia de acidentes. E neste caso não se trata de um país, mas de um continente que usa este tipo de transporte, que é considerado um dos mais seguros.
Então, fica o questionamento sobre o porque dos acidentes na Argentina. Pois isto está ligado à decadência do país. Um país que já teve padrões europeus, mas que parou no tempo. A indústria argentina sucateou-se. Sucumbiu à concorrência dos produtos fabricados no Brasil e na China. O forte da Argentina sempre foi o agronegócio. Carne, lã e trigo de primeira qualidade. Mas também sempre foi forte na Argentina o populismo. O discurso enganador dos políticos. E isto segue hoje mais forte do que nunca, na figura de Cristina Kirchner, que conseguiu bater de frente com o agronegócio, enfraquecendo o carro-chefe da economia do país. O governo meteu sua mão no dinheiro do setor produtivo para fazer o seu proselitismo. Dinheiro que é usado para programas assistencialistas, deixando de lado os investimentos em infra-estrutura. Como nas ferrovias, por exemplo.
Os serviços ferroviários sucateados e lotados, operados por empresas privadas e fortemente subsidiados pelo Estado, são marcados por acidentes e atrasos. As agências reguladoras dos serviços concedidos não cumprem sua atribuição de fiscalizar. Algo que conhecemos bem no Brasil. O último informe da AGN – Auditoria General de La Nación, é de 2008. Isto que naquela ocasião havia advertido que a concessionária do serviço, TBA – Trens de Buenos Aires S.A., não cumpria com os planos de manutenção e segurança operacional. Apesar da advertência, providências não foram tomadas e a agência reguladora tampouco voltou à carga. As vias e os vagões em uso são os mesmos de 50 anos atrás. As obras de atualização da ligação Onze-Castelar, iniciadas em 2008, se encontram paralisadas por falta de pagamento e de atualização de preços. Assim, ferrovias, como as indústrias do país, estão sucateadas. E só funcionam graças aos subsídios governamentais. Segundo o jornal Clarin, no último mês, a TBA arrecadou 12,7 milhões de pesos, enquanto que os subsídios desse período chegaram a 76,7 milhões de pesos mensais. E para manter esses subsídios em alta, os donos da TBA, os irmãos Claudio e Mario Cirigliano não pouparam propinas para o secretário dos Transportes do kirchenismo, Ricardo Jayme, assunto que está agora nas barras da Justiça. Aliás, corrupção nos meios governamentais e políticos, outro assunto que conhecemos bem no Brasil, também é uma constante na Argentina. E com níveis que, seguramente, suplantam os brasileiros. Com o que, o resultado só pode ser acidentes como o desta quarta-feira.