No encontro que manteve esta semana em Washington com seu colega Barack Obama, a presidente Dilma Roussef deixou de lado questões políticas como o Irã e a reivindicação brasileira a uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU. Os temas ficaram de fora porque, evidentemente, não há uma convergência entre os dois dirigentes. É curioso que o Brasil siga insistindo em ter este lugar destacado nas Nações Unidos, quando o país não desenvolve um papel de relevo no cenário político mundial. Estamos muito bem, é verdade, na parte econômica. O que se dá graças à manutenção de uma política que foi implantada no país em 1994, com o Plano Real e ao nosso empresariado. Aliás, as maiores conquistas da visita de Dilma aos Estados Unidos ficaram, não por conta do encontro entre os dois presidentes, mas dos encontros empresariais, como, por exemplo, o fórum “Brasil-EUA: Parceria para o Século 21”. Entre outras coisas, neste evento foi alicerçada uma parceria entre a Embraer e a Boeing, duas gigantes do setor de aviação.
Mas, se vamos bem na área internacional em matéria de economia, o mesmo já não acontece com a política. Não fomos capazes, por exemplo, de exercer uma mediação na chamada “guerra das papeleiras” que envolveu dois parceiros do Mercosul, Argentina e Uruguai. O caso teve que ir para a alçada do rei da Espanha e da Corte Internacional de Haia. Tá certo que mandamos uma força para o Haiti e tivemos um papel relevante depois do terremoto que destruiu o país. Mas não conseguimos ajudar a dar estabilidade política àquele país. Temos muita preocupação é com Cuba. A ilha gera um fascínio sobre os nossos dirigentes, como se ali predominasse o mais bem sucedido modelo econômico e a mais plena democracia. Aliás, Cuba será assunto neste fim de semana da Cúpula das Américas, que se realiza em Cartagena das Índias, na Colômbia. Os governantes de Brasil, Venezuela, Nicarágua e outros adeptos que estarão presentes, estarão tentando convencer os Estados Unidos a acabar com embargo à ilha. Curioso que nunca se viu uma tentativa de convencer os dirigentes cubanos a implantar a democracia no país, fator fundamental para que a ilha se torne um par igual às demais nações americanas.
Mas em Cartagena também estará em debate um assunto que diz muito ao Brasil e o qual também não o temos encarado com a devida energia: o narcotráfico. Outro tema deixado de lado na conversa de Dilma com Obama, certamente, porque o Brasil é contra o programa desenvolvido na Colômbia com o apoio americano. Um programa que, diga-se de passagem, está conseguindo, depois de meio século, desmantelar a narcoguerrilha das Farc. Mas o tema das drogas no âmbito da Cúpula das Américas tem a liderança do presidente da Guatemala, Otto Pérez Molina, numa posição revolucionária. Ele entende que os países consumidores devem pagar uma compensação monetária e quer um marco jurídico para regulamentar a produção, o trânsito e o consumo de narcóticos. Se lembrarmos o que era Chicago ao tempo da “lei seca” e o que é hoje, pode fazer sentido o que está propondo Molina. Guardadas as devidas proporções, os cartéis que dominavam o tráfico de bebidas tinham o mesmo poder de fogo e de dinheiro que têm hoje os cartéis do narcotráfico. México e Colômbia estão encampando a ideia do guatemalteco. O assunto merece um amplo debate, porém, mais do que nunca, o tema requer uma forte participação do Brasil.