Que os Estados Unidos querem incrementar a presença de brasileiros em seu território não é mais novidade para ninguém. Agora, é novidade o fato de os Estados Unidos quererem a parceria do Brasil para enfrentar ataques cibernéticos e para atuar na África. Pois esta novidade foi trazida esta semana pelo secretário da Defesa norte-americano Leon Panetta, em sua visita ao nosso país. Disse que os EUA “não podem mais garantir sozinhos a segurança do continente e buscam, como parte de sua nova estratégia militar, aumentar a cooperação com o Brasil na região e no mundo”. Os Estados Unidos nunca buscaram uma cooperação militar com o Brasil, até porque sua política para a região sempre foi de dominação. Mas os tempos mudaram. Acabou a confrontação Leste-Oeste, ou seja, comunismo-capitalismo. Hoje a grande preocupação é com o terror, que pode atacar a qualquer momento e em qualquer lugar. E esses ataques podem sem tanto os atos insanos de um terrorista suicida da Al Qaeda, como a ação de um hacker penetrando nos serviços de inteligência de um país ou, simplesmente, provocando o caos no informatizado sistema que controla a distribuição de energia elétrica, por exemplo. Essas novas preocupações, que se estabeleceram a partir do início deste século 21, marcam também as novas relações dos Estados Unidos com o Brasil. Que agora querem a cooperação no mundo. Relações que se acentuaram, por incrível que pareça, durante os governos de Bush e de Lula. E receberam um impulso agora por ocasião da visita da presidente Dilma aos EUA, quando foi acertado o chamado Diálogo de Cooperação em Defesa. Vejam que no curto espaço de tempo transcorrido desde a visita de Dilma, ou seja, pouco mais de duas semanas, já tivemos as presenças aqui no Brasil do secretário da Defesa, Leon Panetta, e da secretária de Estado Hilary Clinton, entre outras figuras importantes do staff americano.
Este novo relacionamento se dá também porque o Brasil, com o seu crescimento econômico, passou a ser um novo e importante ator global, tanto como integrante do bloco dos Brics como do G-20. Fatores que o levaram a alimentar a ambição de ter uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU. Aliás, uma ambição não muito bem explicada, especialmente, pelas responsabilidades dela decorrentes. Porém, o apoio americano é muito importante para esta pretensão. Mas, este novo Brasil é também um grande comprador. Agora, por exemplo, está querendo equipar suas Forças Armadas como novos caças de combate, helicópteros e submarinos. Afinal, não estamos em guerra, mas temos que vigiar a Amazônia e o Pré-Sal, entre outras coisas. Por isto, logicamente, que Panetta veio defender, com veemência o F-18 da Boeing na concorrência dos novos caças da FAB. Claro, por trás de um bom relacionamento sempre tem um bom negócio. O que não deixa de ser uma oportunidade para o Brasil pressionar em nome da Embraer, que teve embargada a venda de seus aviões para a Força Aérea americana, numa concorrência em que já havia vencido.
Todavia, o que mais surpreende na proposta de Panetta é a parceria para o treinamento de militares na África. E aí mais uma vez vem o proselitismo de que “Brasil e EUA têm laços históricos com o continente e interesse estratégico em sua estabilidade”. O certo é que os dois países já têm projetos conjuntos de cooperação agrícola com países da África. O Brasil, por exemplo, o tem com Moçambique. Começou com a ajuda no programa de agricultura familiar e Fome Zero. Hoje, o norte de Moçambique foi arrendado a empresários brasileiros para plantar soja e milho. O mesmo que estão fazendo EUA e China em outros países do continente. Está certo que o país que cede o território fatura com a taxa de exportação do produto. Mas a pergunta que cabe, pois até agora não ficou claro, é se esta produção irá ajudar a amenizar a fome da África. Ou será que nós vamos ter a parceria americana no continente para fazer mais alguma forma de imperialismo?