(Artigo publicado no Correio do Povo de domingo, 20 de janeiro)
Os presidentes George Bush, dos EUA, e Lula da Silva, do Brasil, estão apresentando algo em comum. Ambos estão agindo pelo mundo em busca de negócios para corporações de seus respectivos países.
Quanto a Bush, sua presente viagem pelo Oriente Médio, dita em nome da mediação entre israelenses e palestinos, nada mais é do que a busca de grandes negócios. E ele obteve sucesso nesse objetivo. Na quarta-feira, teve-se a informação de que ele acertou a venda de 20 bilhões de dólares em armamentos para monarquias do Oriente Médio, Arábia Saudita, Kuwait e Emirados Árabes Unidos. E o que tem sido o mote para a venda desses armamentos? Simples, o Irã! Não é atoa que o presidente americano tem insistido no “perigo do Irã”. Insistido que aquele país logo terá a bomba atômica – embora as próprias agências americanas o desmintam. Que aquele país fomenta o terrorismo, dando apoio financeiro a organismo terroristas. Que aquele país pode contribuir para a destituição das monarquias da região. Alardeando essas ameaças, Bush aplainou o terreno para a venda dos armamentos.
Quando Bush fez a guerra no Iraque, ele tinha alguns objetivos específicos: controlar o petróleo daquele país, vender armas e gerar grandes negócios para as empresas de construção. Hoje, o petróleo está em mãos americanas, mas a reconstrução do Iraque está devagar, assim como a venda de armas. Então, Bush precisava buscar o desenvolvimento desses negócios em outras freguesias, para não frustar aqueles que sustentaram sua campanha. Usou então o discurso do Irã e obteve sucesso. A indústria bélica garante uma boa receita e as empresas de construção encontram nas monarquias do Golfo um terreno fértil e bem menos perigoso do que o Iraque.
Já a viagem de Lula a Cuba teve muito de proselitismo e muito também de negócios. Tudo isto faz parte de uma estratégia que visa, de maneira sutil, superar a influência que tem na região o presidente venezuelano Hugo Chávez. Foi de maneira sutil, por exemplo, que Lula contestou Chávez, que pediu a classificação das Farc como “grupo beligerante” e não como “grupo terrorista”. Lula disse que o Brasil não é território de classificação de tendência política ou de luta armada, mas condenou a maneira como as Farc agem, ao dizer que “é abominável essa história de seqüestros”. Chávez tem hoje muita influência sobre Cuba. Com sua ação, Lula procura minimizar essa influência, usando para isto a questão de fundo de sua viagem: negócio. E negócio que envolve petróleo. Hoje, Cuba é totalmente dependente do petróleo da Venezuela. Chávez fornece o produto quase de graça. Isto, um dia pode acabar. Lula oferece a possibilidade de Cuba ter o seu próprio petróleo e ainda vender o excedente.
Este negócio foi o ponto chave da viagem. A Petrobrás assinou três acordos para a exploração e produção de petróleo no Golfo do México. Ou seja, a Petrobrás com isto amplia sua atuação para uma das regiões mais férteis do mundo em termos petrolíferos. Assim é que, enquanto Bush usa a guerra, Lula usa do seu proselitismo para fazer negócios.