Segue repercutindo pelo mundo as revelações sobre o tratamento que as Farc dispensam às pessoas que mantém sequestradas. Os depoimentos de Clara Rojas e Consuelo Gonzalez, as duas reféns recém libertadas, chocam a qualquer pessoa e deixam cada vez mais evidente a característica terrorista das Farc. Muito embora a vontade do presidente venezuelano Hugo Chávez em caracterizar a organização apenas como insurgente.
A indagação que se tem feito é sobre as razões de os guerrilheiros terem libertado as duas reféns, sabendo-se que elas iriam revelar os maus tratos que são impostos aos reféns. A libertação obedece a uma série de fatores. O primeiro deles é o fato de as Farc estarem encurraladas. Sua luta não tem mais como avançar. Aquele objetivo, traçado 40 anos atrás de tomar o poder pela força das armas, já não tem mais possibilidade de se concretizar. Não há mais campo na região para as chamadas “revoluções de esquerda”, como a que tomou o poder em Cuba. Hoje a realidade é outra. A Colômbia vive sob uma democracia plena e quem quiser o poder deve tomá-lo pela força do voto.
A guerrilha das Farc não tem o apoio financeiro de Moscou ou Pequim, que nas décadas de 60 e 70 recebiam os movimentos revolucionários da América Latina. A fonte de recurso das Farc é o narcotráfico. O que a torna ainda mais desacreditada. Então, não vendo futuro, mas tendo ainda algum poder, as Farc tomaram a decisão de libertar as reféns como um gesto de boa vontade e como um gesto para fortalecer a figura de Hugo Chávez.
Acontece que desde o início do governo Uribe, em 2002, as Farc praticamente desapareceram de zonas importantes do país, inclusive do entorno de Bogotá, onde mantinham uma presença histórica. Concentram-se cada vez mais em áreas fronteiriças despovoadas. Inclusive na fronteira com o Brasil. Uribe conta com os recursos bilionários do Plano Colômbia, financiado pelo governo dos EUA para combater o narcotráfico. E nessas operações usa inclusive aviões Super Tucanos produzidos pela Embraer e que se adptam bem ao cenário da guerrilha.
Os reféns se constituem ainda no grande trunfo em poder das Farc. Conforme disse a recém libertada, ex-deputada Consuelo González, qualquer tentativa por parte do governo de resgatar os reféns pela força, implicará na execução dos mesmos pelos seqüestradores. Então, a guerrilha sabia que as reféns libertadas iriam revelar os maus tratos aos seqüestrados. Mas iriam revelar também este dado de que os mesmos serão executados em caso uma operação militar de resgate.
Segundo as estimativas, são 43 os reféns políticos que permanecem em poder das Farc. Todavia, o número total de reféns com a organização chega perto de 500. A maioria nãose constitui de reféns políticos, mas de reféns econômicos, como são chamados. São pessoas seqüestradas com o fim de extorquir dinheiro. Em dezembro, seis desses seqüestrados foram executados, porque não foi pago o resgate pedido. Há muitos casos de pessoas que tiveram o resgate pago, mas foram executadas. Como o filho do dono de uma fábrica de sapatos de Bucaramanga. O pai pagou 250 mil dólares, depois de longos meses de negociações, mas o filho já havia sido executado oito dias depois de seqüestrado. O advogado Gustavo Muñoz, diretor da Fundação Nova Esperança, diz que as Farc obrigam os seqüestrados a gravar provas de sobrevivência adiantadas, para continuar extorquindo depois de matar o cativo. Isto é o que o presidente Chávez quer classificar como organização política. E o pior é que os reféns econômicos estão fora dos acordos que estão sendo negociados.
Assim, cabe uma grande responsabilidade para o presidente colombiano Álvaro Uribe na maneira de agir. E pelo que se observa, tudo é questão de ter um pouco de flexibilidade. Como, por exemplo, aceitar o pedido da guerrilha de desmilitarizar uma área entre os municípios de Pradera e Florida, no Oeste da Colômbia. Uribe insiste em que essa área seja menor, o que parece uma exigência que só protela um acordo.
Há que considerar que tanto a Cruz Vermelha Internacional como a Conferência Episcopal da Colômbia tem agido como mediadores. A representação eclesiástica, inclusive, apresentou esta semana a proposta de uma “zona de encontro” para negociar. São luzes que surgem a iluminar o difícil caminho para a reconciliação colombiana.