
Na terça-feira da semana passada, as forças da ONU que atuam no Timor começaram a passar o controle dos serviços de segurança para organizações locais, entregando três delegacias no centro de Dili, a capital. Nesta segunda-feira, menos de uma semana depois do início desse processo que pressupunha tranquilidade, o país foi sacudido por um atentado contra o presidente e ganhador do Nobel da Paz José Ramos-Horta.
O atentado teve à frente a figura de Alfredo Reinado, um dos 599 militares afastados, em 2006, pelo então primeiro-ministro Mari Alkatiri, depois de denunciar corrupção nas forças armadas. Naquela ocasião, Alkatiri teve que renunciar, depois que os militares foram reincorporados, exigências para por fim à crise.
O Timor Leste, ex-possessão portuguesa do Sudeste da Ásia, que adquiriu sua independência em 2002. O país foi colonizado pelos portugueses em 1512, que lá chegaram em busca de sândalo, madeira nobre utilizada na fabricação de móveis de luxo e na perfumaria. Praticamente toda a ilha era coberta por essa madeira. Durante quatro séculos os portugueses utilizaram o território timorense apenas para fins comerciais. Dili, a capital, veio a ter luz elétrica somente nos anos 60 do século 20. Água, esgoto, escolas e hospitais, somente na década seguinte. O resto do país seguiu abandonado.
Com a Revolução dos Cravos, que acabou com a ditadura salazarista de mais de 40 anos em Portugal, os portugueses resolveram abandonar a ilha, em agosto de 1975. Passaram o poder à Frentelin, Frente Revolucionária do Timor Leste, organismo esquerdista, que a 28 de novembro do mesmo ano proclamou a independência do Timor.
A independência, no entanto, durou pouco. O general Suharto, governante da Indonésia, mandou suas tropas invadir a ilha. Apesar do protesto da ONU, a 7 de dezembro de 1975, a Indonésia consumou a ocupação da ilha. Uma política de genocídio resultou num grande massacre de timorenses. Somente em 1999, sob grande pressão internacional, a Indonésia concordou com a realização de um plebiscito sobre a independência do território. Em 22 de setembro daquele ano, soldados da ONU entraram no país e o encontraram totalmente destruído. Xanana Gusmão, líder da resistência timorense, foi libertado logo em seguida. Em abril de 2001, ele viria a ser consagrado nas urnas o primeiro presidente do país. Isto depois de ter sido realizado o plebiscito que aprovou a independência. O Brasil participou das forças da ONU enviadas à ilha para garantir o processo de reestruturação. O diplomata Sérgio Vieira de Melo, que viria a morrer no Iraque, em 2004, teve um papel importantíssimo no processo de recuperação do país.
Tudo ia bem até junho de 2006, quando o então primeiro-ministro Alkatiri fez a besteira de tentar fragmentar o exército. Provocou uma decepção no cenário internacional e a convulsão interna. Mari Alkatiri era acusado de ter um estilo bolchevista de administrar. Arrogante e autoritário. Algo que não se coaduna para uma nação que quer ser democrática e inserida no cenário mundial. Algo que busca com muita força para superar sua história marcada pelos colonialismos português e indonésio. Com Alkatiri fora, o Timor tenta retomar sua tranqüilidade.
A recuperação foi em termos, porque divergências internas exigiram a manutenção no país da presença da ONU. Um grupo dissidente e expulso do exército, liderado por Alfredo Reinado, queria o poder. Agora, quando a ONU pensava que estavam criadas as condições para se afastar, vê que ainda não é momento para tal.