Tanto a posse de Daniel Ortega na Nicarágua como a de Rafael Correa no Equador contaram com a presença de um dirigente estranho ao meio latino-americano: o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad. E aí é de se perguntar: o que um dirigente de um país tão distante, situado lá na Ásia, vem fazer aqui, na posse de dirigentes da região. Pois, vem buscar aliados contra os EUA. E, convenhamos, encontrou um terreno fértil.
O presidente do Irã tem batido de frente com o seu colega George Bush, dos EUA. E tem sido alvo de uma campanha intensa da comunidade internacional por causa de seu programa nuclear. E Ahmadinejad tem dado combustível para seus críticos, não só por sua determinação em levar adiante o programa nuclear, como também por suas declarações, onde se inclui a contestação à existência do holocausto. Acabou ficando isolado. E seu país só não foi atacado até agora porque os EUA estão atolados no Iraque. Mesmo assim, há dois porta-aviões norte-americanos no Golfo Pérsico, prontos para qualquer eventualidade.
Sob cerco em sua região, Ahmadinejad buscou uma aproximação na América Latina, onde proliferam os dirigentes anti-americanos. A lista foi acrescida nos últimos tempos por Hugo Chávez, na Venezuela, Evo Morales, na Bolívia e Rafael Correa, no Equador, tendo a somar ainda Daniel Ortega, que está de volta ao poder na Nicarágua. Na ponta da lista está o dirigente cubano Fidel Castro, cujo estado de saúde segue sendo uma incógnita e vem dando o que falar, não só aqui na América, mas até na Espanha.
Essa aproximação do presidente do Irã com os dirigentes esquerdistas da América Latina torna mais delicada a situação na região. Soma-se a isto, o radicalismo que vai assumindo o governo Chávez, na Venezuela. A propósito, Chávez veio esta semana ao Rio de Janeiro pregando em alto e bom tom que quer “descontaminar” o Mercosul. Logo ele que acaba de receber carta branca para governar por decreto durante 18 meses. Ou seja, vai implantar a medida que quiser, sem precisar consultar o legislativo ou o judiciário. Ao mesmo tempo, está preparando a reforma da Constituição, para que possa reeleger-se indefinidamente. E já destinou US$ 1,8 bilhão para os “conselhos comunais”. Esses organismos ele controla graças ao dinheiro do petróleo. E, a partir desse controle, ele pretende simplesmente acabar com as prefeituras, substituindo-as por esses conselhos. Tudo isto sendo feito sob o acompanhamento de um severo cerceamento à imprensa. Tanto que a emissora RCTV, que é contra o governo, não teve a sua concessão renovada.
Então, é esse Chávez que toma essas atitudes e que se aproxima do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, que quer descontaminar a América Latina. É de se perguntar se uma América Latina sob o prisma de Chávez ou de Evo Morales, ou, o que é pior, de Ahmadinejad, conseguirá atrair o investidor estrangeiro? Conseguirá ter uma democracia plena? Claro que não. Está na hora, portanto, de o presidente Lula assinalar o seu distanciamento dessa política. Sob pena de o Brasil pagar o preço de uma adesão tácita à mesma.