Mesmo em meio à tragédia do ciclone que devastou o país, os militares que comandam Mianmar decidiram manter o referendo que está marcado para este sábado sobre a nova Constituição para o país. Mianmar, que até 1989 se chamava Birmânia, vive politicamente uma situação similar a que passamos aqui na América Latina nos anos 1960 e 1970. O país teve eleições gerais em 1988, onde resultou vencedor a Liga Nacional pela Democracia, da ativista política Aung San Suu Kyi, Prêmio Nobel da Paz de 1991. O resultado das eleições, no entanto, não foi respeitado pelos militares, que deram um golpe, assumindo desde então o governo.
Depois dos intensos protestos de setembro do ano passado, liderados pelos monjes, os militares resolveram oferecer uma nova Constituição ao país, a qual, dizem, é o caminho para a democracia e eleições gerais em 2010. Só que, o critério de elegibilidade colocado na Carta impede que Suu Kyi e outros ex-exilados possam concorrer. Além disto, há outro aspecto que lembra muito o tempo dos militares por aqui. No Brasil nós tivemos a figura do senador biônico, que era indicado pelo governo. Em Mianmar, o texto proposto reserva 25% das vagas no Parlamento a indicados pelos militares. Também dá ao chefe do Exército o poder de escolher alguns ministérios principais.
Diante disto, a oposição está numa encruzilhada. Não sabe se aproveita a pequena abertura política e depois vai pressionando por maior abertura, como ocorreu por aqui. Ou se fazem uma campanha intensa pelo “não”, provocando a derrota dos militares e forçando-os a dialogar com Suu Kyi. De qualquer forma, uma coisa é consenso entre quem está a favor ou contra a nova Constituição: manter a consulta popular para este sábado, em meio a uma catástrofe em que deixa mais de 22 mil mortos, é um absurdo de marca maior.