O primeiro-ministro britânico Tony Blair está em duplo destaque nos noticiários. De uma parte, porque figura no filme “A Rainha”, que neste domingo à noite está arrolado entre os que concorrem ao Oscar. De outra parte, porque tomou a decisão de retirar parte dos soldados britânicos do Iraque. São duas situações distintas, tanto no tempo, quanto na forma de agir do premiê.
No filme, que retrata a morte da princesa Diana, em agosto de 1997, Tony Blair, recém chegado ao comando do governo britânico, tomou uma atitude firme em defesa da monarquia. Foi ele que induziu a rainha Elizabeth a tomar determinadas atitudes que não pretendia. Mas que, se não tomasse, veria a imagem real desgastada perante a opinião pública. Assim, mesmo em início de governo, tomou uma decisão de estadista, que foi crucial para a preservação de uma das instituições britânicas: o trono.
Já a atitude que tomou esta semana de retirar 2.100 dos 7.100 soldados que o Reino Unido mantém no Iraque, significa a tentativa de correção do enorme erro que cometeu, em março de 2003, ao apoiar de forma incondicional a invasão do Iraque pelos EUA. Já foi dito, mas nunca é demais repetir, que a ação de Bush no Iraque foi justificada pela mentira das armas de destruição em massa, que nunca existiram. Havia a presença de inspetores da ONU dentro do Iraque com a missão de fazer a investigação sobre armas. Bush os desconsiderou e ordenou o ataque. E Blair fez o ridículo papel de ir ao Parlamento, levando falsos relatórios sobre ditas armas, para justificar o apoio a Bush. Sua ação só foi suplantada em termos de vexame pela do então secretário de Estado Colin Powell, que foi até a tribuna da ONU apresentar um relatório sobre armas do Iraque, que, depois, descobriu-se ser totalmente falso.
Mesmo que seus parceiros da Europa, como o francês Jacques Chirac e o alemão Gerhard Schroeder, tenham denunciado a falta de provas contra o Iraque, Blair não deu ouvidos a eles. E tornou-se um fiel seguidor de Bush, no que foi acompanhado pelo então premiê da Espanha José Maria Aznar. O resultado das decisões de Blair e de Aznar foram sentidos pelas populações britânica e espanhola. Os metrôs de Londres e de Madri foram alvo de atentados perpetrados por facções radicais, que Bush deveria ter combatido no Afeganistão, onde se refugiavam, mas que as deixou livres na medida em que deslocou sua ação para o Iraque. Bem, aí ele conseguiu não só deixar livre a gentalha de Osama Bin Laden, como ainda criar no Iraque um terreno fértil para a sua expansão. E Tony Blair deu cego apoio para tudo isto.
Não foi sem razão que o prestígio daquele que fora um baluarte em defesa das instituições no caso Diana, tenha caído por terra recentemente. A ponto de Blair ver-se forçado a anunciar para maio, possivelmente, a sua saída do governo, embora ainda tenha direito a mais dois anos de mandato. Por seu lado, Bush, que não perde viagem, aproveitou, não para criticar Blair por sua atitude, mas para cumprimenta-lo, porque a situação em Basra, onde estão os soldados britânicos, está relativamente calma. Bem diferente do que ocorre em Bagdá. De qualquer forma, Blair deixou mal o seu país e o seu partido, pois, pesquisa do “The Guardian”, aponta os trabalhistas 13 pontos atrás dos conservadores na corrida para o Parlamento. E sua correção de rota agora dificilmente muda o quadro. * Estou viajando para Cuba, assim, o próximo artigo escreverei direto da terra de Fidel Castro.