O conflito entre Rússia e Geórgia tem sua origem no processo que resultou na desintegração da União Soviética, em 1991. Porém, sua motivação presente envolve a crescente confrontação entre Rússia, de um lado, e União Européia e Estados Unidos de outro.
Vamos aos detalhes. Com o colapso do comunismo no Leste europeu, os países que compunham a União Soviética se tornaram independentes. Nesse processo, a Geórgia levou consigo a Ossétia do Sul, que já lhe havia sido dada por Joseph Stalin, em 1922. Porém, com sua ação, a Geórgia estabeleceu uma divisão que contrariava a vontade da maior parte da população da Ossétia do Sul, etnicamente identificada com a Ossétia do Norte, que continuara sendo um protetorado russo. Cerca de dois terços dos sul-ossetianos têm cidadania russa. Assim, tão logo a Geórgia declarou a sua independência, em 1991, a Ossétia do Sul se rebelou e iniciou um movimento por sua independência. Os tanques da Geórgia sufocaram o movimento, que não teve nenhuma reação de Moscou, então extremamente enfraquecido, em decorrência da desintegração da União Soviética. Mesmo assim, a Ossétia do Sul se declarou independente e passou a funcionar de forma autônoma. Desde então vigorou um cessar-fogo na região.
A situação começou a mudar a partir de 2004, quando assumiu o governo da Geórgia o presidente Mikhail Saakashvili, totalmente pró-Ocidente. Desde logo começou a trabalhar para fazer como a maior parte dos países do Leste europeu, que orbitavam em torno de Moscou e que bandearam para a União Européia. E a própria Europa acenou para ele com a possibilidade de integrar até mesmo a OTAN, o que daria respaldo para proteger um corredor estratégico de gás da Ásia Central. Outro objetivo de Saakashvili era reunificar a Geórgia, ou seja, acabar com a situação ambígua da Ossétia do Sul.
O problema é que a Ossétia do Sul foi se tornando um protetora do Moscou, que passou a suprir dois terços do seu orçamento. Já recuperados política e economicamente, os russos deram à região um presidente e uma Constituição, forjando um Estado que só eles reconheceram.
E é justamente aí que se aguça a confrontação Leste Oeste. Os estreitos laços de Tbilisi e Washington e a perspectiva de a Geórgia entrar para o bloco militar ocidental irritaram profundamente Moscou. Soma-se a isto, o fato de a União Européia e os EUA terem apoiado a independência da província sérvia de Kosovo, contrariando a Rússia.
Assim, os russos estavam apenas esperando um motivo para agirem. E motivo surgiu na quarta-feira, quando o governo da Geórgia enviou o exército para a Ossétia do Sul, a fim de sufocar os movimentos separatistas. Na sexta-feira, a Rússia saiu em defesa da Ossétia do Sul, bombardeando não só em cidades daquela província rebelde, como também cidades da própria Geórgia.
E se o presidente da Geórgia confiava na sua aliança com Europa e EUA para estabelecer a unidade de seu território, se deu mal, porque ninguém sairá em sua ajuda. O máximo que farão será uma condenação aos russos, como fez George Bush, mas sem envolvimento direto. Ou seja, a Geórgia está só nessa parada.