O presidente do Paquistão Pervez Musharraf fez o que muitos políticos brasileiros fazem: renunciou para não sofrer processo de impeachment. A diferença é que aqui esses mesmos políticos voltam na eleição seguinte e são eleitos, enquanto que essa perspectiva não se apresenta para Musharraf, de 65 anos. Ele está desgastado por nove anos de um governo com mão de ferro e enfraquecido por ter sido obrigado a abrir mão da maior parte do poder, em fevereiro último, ao ficar como chefe de Estado, como presidente, enquanto que a chefia de governo era passada a um novo primeiro-ministro.
As acusações que pesam sobre Musharraf são vagas: incompetência, violação da Constituição e responsabilidade pelas crises econômicas e energéticas. De tudo isto, o mais concreto é a violação à Constituição. Ele era chefe do Exército no final da década de 1990. Em 12 de outubro de 1999, enquanto estava fora do país, o então primeiro-ministro Nawaz Sharif o demitiu do cargo e tentou evitar que o avião que o levava de volta pousasse no aeroporto de Karachi. As Forças Armadas, que estavam do lado de Musharraf, tomaram controle do aeroporto e de outras instalações do governo e depuseram Sharif, pavimentando o caminho para a ditadura de Musharraf. Logo após o golpe, Musharraf consolidou seu poder ao obrigar todos os juízes do Paquistão a fazer um juramento de lealdade aos militares.
Com os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos e a subseqüente invasão americana ao vizinho Afeganistão, Musharraf cultivou laços próximos com o governo americano. Os EUA injetaram milhões de dólares na economia do Paquistão desde que Musharraf se tornou um aliado na chamada guerra ao terror. Ele queria aproveitar as forças americanas para extinguir as raízes do movimento islâmico radical na fronteira dos dois países.
O problema maior para o Paquistão é que a saída de Musharraf não significa que venham a diminuir os graves problemas do país.