O nosso chanceler Celso Amorim se deixou contaminar pelos instintos nacionalistas e regionalistas de dirigentes como Hugo Chávez, Evo Morales ou Rafael Correa. Na opinião do chanceler, a cúpula América Latina-Caribe, que acontece na Bahia, reunindo 33 chefes de governo ou de estado, funcionará como um manifesto pela independência da região. Isto porque, o encontro acontece sem a presença do que Amorim chamou de “poderes externos”. E, neste caso, leia-se Estados Unidos, Espanha e Portugal.
Ele estava se referindo à histórica influência dos países ibéricos aqui na região como colonizadores e exploradores, assim como à hegemonia exercida nos anos recentes pelos EUA.
É curioso que, nestas alturas, quando vivemos num mundo globalizado, se venha a contestar ações de países do primeiro mundo. O que precisamos é de parceria com estas nações. Afinal, hoje não estão mais aqui as naus de Colombo ou Cabral para levar nossas riquezas, mas as empresas de telefonia ou do setor bancário para prestar serviços e fazer negócios. Quanto aos EUA, oferecem um novo momento para o mundo com a posse de Barack Obama.
Então, não me parece ser este um momento certo para separatismos. Mas isto se dá, certamente, pela força que certos governantes da região tem para influir sobre o governo brasileiro. O que é lamentável.
CONSELHO DE DEFESA
Sem a participação da Colômbia, que é contra a proposta, foi aprovada a criação do Conselho de Defesa da União das Nações Sul-Americanas. Proposta esta apresentado no meio do ano pelo Brasil, detalhada pelo ministro da Defesa Nélson Jobim em visitas à maior parte do países da região e aprovada na reunião de ontem da Unasul, em realização na Costa do Sauípe, na Bahia.
O Conselho é um organismo que visa harmonizar as ações militares na região e, com isto, evitar confrontos entre vizinhos, como o que envolveu Peru e Equador, por causa de diferenças territoriais na Cordilheira do Condor. Esse se deu por diferenças territoriais e foi resolvido pela mediação diplomática do Brasil. Porém, há outro tipo de conflito na região que é muito mais difícil de resolver, que é o ideológico. Exemplo mais recente, a ação da Colômbia caçando guerrilheiros das Farc no Equador, fato que provocou confronto não só como governo daquele país,que se sentiu invadido, como também com a Venezuela, em vista da solidariedade de Hugo Chávez para com Rafael Correa. E este tipo de divergência permanece, tanto que o presidente da Colômbia Álvaro Uribe deixou claro que não participaria da iniciativa do Conselho por ter divergências com outros líderes da região em relação às Farc. O que é uma ausência lastimável. Quem sabe, no âmbito do conselho essas questões pudessem ser melhor discutidas, sem o proselitismo de dirigentes como Chávez.
DOUTRINA MONROE
A cúpula latino-americana que se realiza na Costa do Sauípe, na Bahia, pretende estabelecer novos parâmetros para as relações da região com o mundo. Novas relações que, pelo que se observa, pretendem ser travadas sem a histórica tutela dos EUA. Aliás, desde o fim da Guerra Fria, em 1991, os EUA praticamente deixaram a América Latina de lado. Como disse o presidente do Inter American Dialogue, Peter Hakim, está “morta e enterrada” a Doutrina Monroe, do início do século, a qual estabelecia “a América para os americanos”. Uma frase à qual se costumava acrescentar alguma coisa por aqui, ficando: “a América para os americanos…do Norte”. O fato é que, pela Doutrina Monroe, os EUA passaram a ver o hemisfério como sua zona de influência. Ou, como também se dizia por aqui, passavam a ver a região como seu quintal.
As guerras no Oriente Médio desviaram os interesses dos EUA para a Ásia. O presidente Bill Clinton ainda tentou alguma coisa por aqui, com a constituição da Alca. Mas as divergências com o Brasil inviabilizaram o projeto.
Pois bem, hoje se tenta dar corpo à iniciativa do Brasil referente à Unasul, a União de Nações Sul-Americanas. Organismo que se estrutura sem a presença dos EUA. No entanto, é preciso salientar que é bom que o organismo tenha força. Mas força para agir em cooperação com EUA, Europa, Ásia, etc. Tudo em nome do sistema interligado que se estabeleceu no mundo. E não que o organismo venha dar guarida a propostas retrógradas, como as de Hugo Chávez, com a sua aliança bolivariana.