O Hamas, alvo da incursão isralense à Faixa de Gaza, se constitui na facção mais radical dos palestinos. O grupo expulsou daquela área a facção palestina moderada do Fatah, grupo do qual faz parte o presidente da Autoridade Nacional Palestina Mahmoud Abbas. O Fatah teve que se restringir à Cisjordânia e Abbas perdeu a ingerência sobre a Faixa de Gaza. A diferença política fundamental entre os dois grupos se dá no enfoque quanto a Israel. O Fatah, que é um grupo laico, compartilha a proposta de uma coexistência pacífica com Israel, desde que constituído o Estado da Palestina, ocupando a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. Já o Hamas, que é fundamentalista islâmico, não aceita a existência de Israel. Simplesmente, quer a destruição daquele estado.
É justamente está posição radical do Hamas que impede qualquer avanço nas negociações de paz e, como tal, impede a constituição do Estado da Palestina.
RETROCESSO
Esta passagem de ano está trazendo um trágico recrudescimento da crise no Oriente Médio. Isto, num momento em que se tinha alguns avanços significativos, como as tratativas que se desenvolviam entre Síria e Israel, sob a mediação da Turquia, com vistas a um acordo de paz. Este tema retrocedeu, assim como tantos outros que permeiam os caminhos de israelenses e seus vizinhos muçulmanos. Aliás, o mundo muçulmano está revoltado com o exagero da ação de Israel sobre os palestinos do Hamas, na Faixa de Gaza. Os governos tem silenciado, mas os povos tem saído às ruas para protestar. Onde isto é possível, diga-se de passagem. Porque liberdade de expressão é prerrogativa limitada a poucos países muçulmanos.
O fato é que estamos diante de um retrocesso. O processo de paz entre Israel e os palestinos, que já estava difícil, deu um passo significativo para trás. É certo que o Hamas provocou Israel, com o lançamento de seus foguetes contra cidades do sul israelense. Mas não é menos verdade que Israel mantinha os palestinos da Faixa de Gaza sob um cerco, com o bloqueio que estabelecera à chegada de alimentos, medicamentos, água, etc. Isto já era um castigo para os palestinos. Estes, mesmo sabendo de sua inferioridade, continuaram a cutucar o tigre com vara curta. Algo próprio da falta de visão e do fanatismo.
Mas daí veio a reação de Israel. Descabida, desproporcional. Mais de 300 mortos, incluindo-se, em meio a militante do Hamas, velhos, mulheres e crianças. Algo descabido para um país cuja população foi vítima do Holocausto.
Infelizmente, radicalismo gerou mais radicalismo.
JÁ HOUVE ACORDO DE PAZ
Por incrível que possa parecer, a questão entre israelenses e palestinos, que hoje está nesta situação de confronto extremo, já foi objeto de acordo de paz e até de concessão de Prêmio Nobel da Paz. Isto aconteceu em 1993, por mediação do então presidente norte-americano Bill Clinton. Ele conseguiu reunir em Camp David os então primeiro-ministro de Israel Yitzhak Rabin e o chanceler Shimon Peres, e o então presidente da Autoridade Nacional Palestina Yassar Arafat. Assinaram um acordo que previa a gradativa retirada dos assentamentos israelenses da Faixa de Gaza e da Cisjordânia e a também gradativa passagem das cidades daquelas áreas para a administração palestina.O inusitado do fato levou a Academia do Nobel, sediada em Oslo, conceder no ano seguinte, 1994, o Nobel da Paz para os três dirigentes.
O processo foi avançando, mas com enormes resistências. Tanto que, em 1995, um jovem judeu ortodoxo, contrariado com a retirada dos assentamentos judaicos da Cisjordânia, assassinou o premiê Yitzhak Rabin. Mesmo assim, seguiu-se adiante. Cidades como Jericó, Nablus e outras iam ganhando sua autonomia administrativa. Ao mesmo tempo, incrementavam-se as ações dos radicais contra. Resultado, caiu o governo israelense moderado de Ehud Barak, assumindo em seu lugar o radical Ariel Sharon. Nos EUA, saiu Clinton e entrou Bush. Então, tudo retrocedeu. E chegamos ao trágiCo estágio de hoje.
NOVA OPORTUNIDADE
O caos que se estabeleceu nas relações entre israelenses e palestinos, pode, ironicamente, ser o fator a determinar a retomada das negociações de paz. É claro que essas negociações dificilmente terão a participação de represente do Hamas. Mas é a oportunidade para o moderado Fatah do presidente da Autoridade Nacional Palestina Mahmoud Abbas ganhar força.
O Fatah aceita a existência de Israel sob fronteiras seguras em troca do reconhecimento por Israel do Estado da Palestina. Estado este que envolveria os territórios da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, ou seja, as áreas de predominância palestina. Essas negociações empacaram em alguns pontos básicos: a situação de Jerusalém, o retorno dos refugiados palestinos e a retirada dos assentamentos judaicos da Cisjordânia. Além, evidentemente, da recusa do Hamas em aceitar a existência de Israel.
Tirando o radicalismo do Hamas, os outros pontos são administráveis e já vem sendo tratados há algum tempo. A criação do Estado da Palestina, sob o governo da Autoridade Nacional Palestina, com Abbas à frente, daria força para o Fatah e enfraqueceria politicamente o Hamas, o qual ficaria cada vez mais isolado. Caberia a Israel e à comunidade do Golfo ajudar Abbas a retomar sua autoridade sobre a Faixa de Gaza.
Enfim, é a oportunidade de sair da crise para a solução.