O presidente interino de Honduras, Roberto Micheletti, disse ontem que pode renunciar ao cargo em favor “da paz e da tranquilidade” no país, desde que o presidente deposto, Manuel Zelaya, não retorne ao poder. Mas é aí que está o problema. A volta de Zelaya ao poder é a condição para o reestabelecimento da democracia no país. Pode-se não concordar com as idéias de Zelaya, que estão na orientação de Hugo Chávez, mas o fato é que ele foi retirado de sua casa, de madrugada, de pijamas, e largado em um outro país. Foi um golpe que mereceu reprovação generalizada. Nenhum país deu apoio ao governo que se instalou. Internamente, ele até conseguiu um certo apoio, de setores religiosos, empresariais e meios de comunicação. Mas, para fora, ficou explícito o rompimento do processo democrático.
O atual governo hondurenho quer levar o fato como consumado e realizar eleições em 29 de novembro, como já estavam programadas. Fica a dúvida, no entanto, sobre a lisura de um pleito conduzido pelo governo que deu um golpe. E mais: a recomposição democrática só poderá se dar com o retorno de Zelaya ao governo. Mesmo assim a justiça eleitoral está trabalhando para a realização do pleito, já havendo 20 candidatos. Entre eles, um esquerdista tachado de radical, Carlos H. Reyes. Os nomes mais fortes são Elvin Santos, do governista Partido Liberal, ex-vice-presidente de Zelaya, mas que se dissociou dele, e Porfírio Lobo Sosa, do Partido Nacional, que perdeu para Zelaya em 2005. O fato é que o processo pode continuar, o governo convocar organismos internacionais para acompanhamento da lisura do pleito e tudo seguir como está.
Para que isto não aconteça, só com uma mobilização internacional que resulte num boicote econômico ao país. O Brasil, por exemplo, já cancelou os programas de cooperação militar, acordos técnicos e financiamentos. Espera que os demais associados da OEA façam o mesmo. Sabe-se que o país tem reservas para três meses e meio para importações. Fazer uma aperto nesse sentido pode ser uma forma de fragilizar o governo de Micheletti. E nesse sentido está crescendo na região o descontentamento com o presidente Barack Obama, por sua hesitação em tomar uma atitude mais forte com relação ao governo hondurenho. Ele sequer retirou o seu embaixador de Tegucigalpa.
Enfim, os sindicatos se mobilizaram internamente em Honduras, buscando asfixiar o regime, o qual decretou o toque de recolher. Os sindicatos prometeram fechadas as vias de acesso aos países vizinhos. O governo promete reprimir. E assim tudo segue indefinido no país centro-americano.