(artigo publicado no Correio do Povo de domingo, 02/08/09)
Ao longo da segunda metade do século XX alguns grupos terroristas se destacaram na Europa. Os principais eram o IRA, sediado na Irlanda, mas que estendia suas ações para a Inglaterra, as Brigadas Vermelhas na Itália, o grupo Baader-Meinhof na Alemanha (cujo filme está em cartaz em Porto Alegre) e o ETA na Espanha. O fim do comunismo no leste europeu fez desaparecer as Brigadas Vermelhas e o Baader-Meinhof. O alto crescimento econômico da Irlanda e a diminuição do radicalismo fizeram com que o IRA anunciasse em 2006 a deposição das armas. Seu braço político passou a compartilhar o governo do país. No entanto, o ETA insiste em seguir no caminho do terror. Esta semana atacou em dois pontos diferentes da Espanha. Na cidade de Burgos, onde resultaram feridas 46 pessoas, e no balneário turístico de Mallorca, onde mataram dois policiais.
A ETA – Pátria Basca e Liberdade nas iniciais no idioma basco, criada em 31 de julho de 1959, tem se destacado pelos atentados terroristas. Calcula-se que neste período de atuação, dita em nome da independência do País Basco, tenha matado perto de 1000 pessoas. Seu ato mais destacado ocorreu em 1973, num atentado que vitimou o então primeiro-ministro franquista Carrero Blanco. O carro em que ele transitava foi parar sobre a marquise de um prédio.
O chamado País Basco é uma região que envolve o sul da França e o norte da Espanha, na qual estão as províncias de Guipúzcoa, Vizcaya e Alava, envolvendo cerca de dois milhões e meio de pessoas. Ali estão cidades conhecidas como grandes centros financeiros e industriais como Santander e Bilbao. O governo espanhol já concedeu autonomia para a região, como fez também com Catalunha e Galícia, regiões que, como o País Basco, tem idioma próprio, diferente do espanhol. Mas não admite independência.
A organização terrorista já havia anunciado, em março de 2006, um cessar-fogo permanente. A primeira vista, parecia uma notícia alvissareira, que seguia a tendências das outros organizações terroristas da Europa. Através de um comunicado enviado à rádio e televisão basca, a organização separatista espanhola explicou que o objetivo da decisão então anunciada era de impulsionar o processo democrático no país basco, para construir um novo marco, no qual seriam reconhecidos os direitos do povo basco. E é aí que vem o ponto em que se questionava se a notícia era alvissareira. A ETA já anunciara cessar-fogo em outras ocasiões e sempre rompera. O diferencial naquela ocasião era que falava em cessar-fogo permanente, mas falava também em novo marco para o reconhecimento dos direitos do povo basco. Esses direitos, na sua concepção, significam independência. O que não é aceito pelo governo espanhol.
Assim, não tardou o rompimento da trégua. Em 30 de dezembro de 2006, um atentado da ETA matou duas pessoas no aeroporto de Barajas, em Madri. Mesmo assim, o primeiro-ministro José Luiz Zapatero continuou tentando chegar a um acordo com o grupo. Suavizou as críticas frente às bravatas do líder do partido basco Batasuna, Arnaldo Otegi. Aliviou as pressões sobre o líder basco que está preso Juan Ignácio de Juana Chãos e abriu a porta para que o partido que representa a ETA, a Ação Nacionalista Basca, entrasse para a vida política regular. Como se pode observar, de nada adiantou e os 50 anos da organização não passaram em branco, mostrando que segue na contramão da história.